Retorno 2 - A luz e a Escuridão



Façamos uma reflexão! O que têm em comum os seguintes conceitos: a cobardia; o laxismo; o clientelismo; o conformismo; o seguidismo; o oportunismo; o desleixo; a incapacidade; a imbecilidade; a irracionalidade; a irresponsabilidade; o cinismo, a hipocrisia; a vaidade; a futilidade; a ganância; a ingratidão; a indiferença; a parcialidade; a cegueira; a miopia; o "graxismo"; a indecisão; o obscurantismo e tantos outros "ismos" e "ades", em comum? O que têm todos estes comportamentos em comum, para lá da sua natureza humana e potencialmente destrutiva?


Na minha modesta opinião, baseada na humilde observação dos comportamentos sociais e individuais, julgo resumirem-se, para lá de outras lateralidades, a dois aspectos individuais fundamentais para o funcionamento do colectivo. Esses dois aspectos são, a ética e o carácter. 

A sua falta ou existência, reflete, posteriormente, todos os comportamentos anteriormente identificados e listados. Arrisco mesmo a dizer que, o nível ético e de carácter de uma sociedade, determina o seu estágio de desenvolvimento e progresso.

E porquê a ética e o carácter juntos? Não bastaria a ética? Sim, teoricamente, bastaria. O problema é que o comportamento de cada individuo é sempre, mas sempre, moldado pela capacidade que este tem de se impor perante os demais. Ou visto de outra forma, o comportamento individual é sempre moldado pelo espaço social que os demais indivíduos lhe conferem. Ou seja, o nosso comportamento resulta sempre de uma interação de forças opostas que equilibram a relação social. A força que temos contra a força que nos deixam ter. Dessa interação surge a síntese, que consiste no equilibro de forças conseguido.

Esta ideia reflete, em toda a extensão, a aplicação social e material da dialética filosófica Hegeliana (ser, antítese, síntese), tão sabiamente aplicada à evolução humana e social pelo "ocultado a força" Karl Marx. A "sua" luta de classes, como motor da história, não seria mais do que essa interação (ou oposição?) de forças opostas, que resultam, em cada momento histórico, num equilíbrio (numa síntese), resultante da relação de forças presente. 

Digo eu, então, que esta luta de opostos é determinada, não apenas por processos colectivos (que obviamente, estão, necessariamente, presentes), mas também por processos comportamentais individuais, perante a realidade, que, no seu conjunto, moldam a força e a natureza do colectivo, refletindo-se depois, a sua ação, na relação de forças que leva, posteriormente, a um dado status de evolução social. Aliás, o próprio Marx vem, de alguma forma, fundamentar esta minha ideia, através do estabelecimento dos princípios da crítica e auto-critica que tão importantes são na aplicação prática de toda a ideologia marxista. 

Contudo, devemos questionarmo-nos sobre o porquê de, neste momento histórico preciso, de não ser possível ainda um equilíbrio social, humano e politicamente, mais avançado do que temos atualmente. Aliás, porque é que, por um lado, a classe dominante continua a dominar tanto e por outro, mesmo nas experiências históricas conhecidas, não se conseguiu criar aquilo que seria a ideia de um homem novo. O que é que faltou?

Em primeiro lugar, terá faltado uma correta transposição prática e politica de uma doutrina ideológica tão perfeita (filosófica e cientificamente fundada) quanto a Marxista. Um dos grandes problemas terá sido, sem dúvida, a incapacidade para os homens, todos eles, terem permanecido revolucionários, mesmo numa situação de domínio do poder politico. E porque é que, os revolucionários num determinado momento, não conseguiram, souberam ou foram incapazes de se manterem como tal? 

É aqui que entra a importância do comportamento individual em interação com o colectivo (mais uma vez, como resultado da aplicação dialética Marxista). É que Marx não aplicou, apenas, a dialética filosófica hegeliana, aos processos colectivos sociais (levou-a do espirito para o homem). Aplicou-a também, aos processos individuais e grupais. O Marxismo não exige apenas uma identificação ideológica teórica. Exige, acima de tudo uma identificação deontológica prática. Marx, por outras palavras, através dos princípios da critica e autocritica, vem aplicar o principio inerente à luta de classes (a interação de opostos  para a produção de um equilíbrio que é uma síntese dessa luta de forças opostas) à relação individual e grupal de cada ser humano.

Assim, o que faltou (ou falta), em suma, para que as pessoas envolvidas nos processos revolucionários, se mantenham revolucionárias é, precisamente, a aplicação prática (e não apenas teórica) da critica e auto-critica. Sem elas não há vanguarda. Só há vanguarda de em cada momento, nós, os revolucionários, conseguirmos questionar, derrubar e ultrapassar, os nossos limites, barreiras e incapacidades. E isso faz-se através de um processo critico (heterogêneo e exógeno) e auto-crítico (individual e grupal, endógeno). Só através desta reafirmação constante dos princípios da critica e autocritica, será possível um progresso interno e externo permanente. Só assim é possível uma síntese perfeita, em cada momento, que reflita um progresso em relação ao status evolutivo precedente. E este processo, chamamos de, isso mesmo, vanguarda. E o contrário disto é a retaguarda. Só assim é possível a revolução por oposição à reação. Com a reação voltamos atrás, com a revolução andamos para a frente. Para que tal aconteça, temos de ser capazes, em cada momento, de questionar e autoquestionar a nossa própria ação. Para que ela não se transforme em reação.

Contudo, sobra uma questão. E porque é que, em determinada altura, os movimentos revolucionários são incapazes de aplicar a critica e autocritica? Porque faltam os modelos comportamentais individuais adequados. Esses modelos são a ética individual e o carácter. É que sem a ética de quem domina, para que domine de forma justa, transparente e participada, sujeitando-se a uma avaliação e critica constantes, e sem o carácter de quem é dominado para que imponha a quem domina um comportamento ético correto (revoltando-se contra as indignidades, injustiças, parcialidades...), não existe nenhuma ordem estabelecida que seja colocada em causa.

A verdade é só uma e deve fazer-nos pensar. Embora a transposição ideológica do Marxismos pressuponha uma certa ordem, nenhuma ordem social ou politica é revolucionária por si mesma. Quem são revolucionárias são as pessoas e quanto muito, os colectivos. Qualquer ordem estabelecida só visa uma coisa, perpetuar e aplicar o poder de quem a estabeleceu. Marx previu-o tão bem que veio dizer que, para que a ordem estabelecida não se torne autocrática, ela tem de ser permanentemente questionada pelas pessoas que a integram, através dos princípios da critica e da autocritica. Só assim essa ordem evoluirá em vez de morrer.

Agora eu pergunto. Será que nas ordens estabelecidas, passadas e presentes, alguém tem a ética de questionar e progredir? Alguém tem o carácter de nãos e limitar a segui-la? Quem estabelece a ordem, permite que a mesma seja questionada e criticada? Será que a ordem é participada de baixo para cima? da base para o topo? Da infra-estrutura para a super-estrutura, como previu Marx. Ou, cada vez mais, que dirige, apenas olha para quem tem acima e ao lado e não para quem tem abaixo? Será que quem dirige molda o seu comportamento eplas necessidades da base, ou pelas do topo? E será que quem dirige questiona e critica essas orientações? Com que frontalidade? Com que sinceridade? Com que caracter? E que estabelece as normas? fá-lod e forma transparente para que as mesmas se sujeitem à critica da base? E quem está na base? tem caracter para o denunciar? E todos nós, autocriticamo-nos? E fazendo-o, moldamos o nosso comportamento a partir daí?

Será este um problema típico dos movimentos revolucionários? Não, não é. Antes de ser destes, é um problema das classes dominantes e dominadas. Tenho em crer que, mesmo assim, os movimentos revolucionários são os que menos sofrem (mesmo que sofrendo muito), desta limitação óbvia do atual estado de desenvolvimento cultural humano da nossa sociedade contemporânea. Mas sim, estes problemas são transversais aos seres humanos e a extensão como cada sociedade, cada pais, cada organização, cada grupo, cada comunidade, sofre deles é que determina, em cada momento histórico, o seu desenvolvimento e progresso social.

Posto isto, teremos nós, a ética e o carácter necessários a uma critica e autocriticas que nos dirijam para um processo revolucionário (interno e externo) que nos coloque na vanguarda do progresso social?

agir em vez de reagir

revolucionar em vez de reformar

questionar em vez de seguir

ultrapassar em vez de perseguir

avançar em vez de retornar

progredir em vez de regredir

mudar em vez de estacionar

abaixo o situacionismo, viva a revolução das mentes (a das instituições vem depois)



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