ENERGIA A MAIS

Acordei ao som estrondoso do meu despertador, esfreguei as remelas e, apalpando de olhos fechados à procura do botão, desliguei o desgraçado instrumento e liguei outro…O rádio.

«O país tem um problema de défice da balança comercial, agravado pelo problema do défice energético», dizia, um dos palradores do regime, na sua crónica “economicista” matinal. Nada como acordar ao som metálico do dinheiro, logo de manhã.

Pensei que, estes doentes, apanhados pelo vil metal, viciados na adrenalina da “mais-valia”, começavam logo de manhã a sua maratona propagandística de convencimento das massas. Funcionam, sem dúvida, como uma espécie de anestésico social. Impedem o povo de chegar, facilmente, à verdade.

Aquilo que parece uma verdade simples passa a constituir uma verdade complexa, porque estes senhores a complicam, de forma a fazerem crer que o desvendar da realidade está para além das capacidades do comum dos mortais e acessível, apenas, a um grupo de iniciados na arte de “como aumentar a exploração do povo em que este o sinta”.

«O governo tem a necessidade de baixar o consumo interno para que se reduzam as importações, o que, aumentando as exportações, leva ao equilíbrio da balança comercial».

Poderia continuar com a citação mas, todo este palavreado se tornou demasiado simples. O “economês” tradicional neo-liberal continuaria a dizer que para isso tem de haver contenção salarial, criatividade fiscal e emagrecimento do aparelho de estado o que, traduzindo para língua portuguesa quer dizer: Baixar salários abaixo do limiar de pobreza; aumentar os impostos sem redistribuir mais, por isso; acabar com estado social.

Como podemos ver, só os mais incautos ignorantes do jargão linguístico “economês”, dialecto padrão da autocracia argentaria ultra-liberal, não saberiam traduzir à letra, expressões idiomáticas tornadas tão comuns.

Contudo, nesse mesmo dia, veio o Governo, sebastiânicamente, mostrar ao país a solução. «Portugal tem de tornar-se um país líder na produção de energias através de fontes renováveis». Confesso que fiquei impressionado. Sem dúvida, uma medida importante. E continuava: «O governo vai accionar um plano de investimento em renováveis que promova, a longo prazo, a sustentabilidade e autonomia energética do país, equilibrando a balança comercial».

Quando governos autocráticos, eleitos ao sabor da mentira, da demagogia e da ocultação das verdades, referem possuir planos de investimento, é razão para ficarmos preocupados…quer dizer que vai chover dinheiro lá para os lados do zoológico das suas amizades.

E, tal assunção, não resulta de nenhum preconceito, resulta de uma constatação material e substancial, que de tão repetida e inatacada por quem o poderia fazer, se tornou, inevitavelmente banal. Passou a ser banal, usar o erário publico para beneficiar patrimónios particulares. A prática do peculato encapotado, tornou-se um “must” ao nível do Know How necessário para governar.

Ora, não foi com surpresa que todos vimos as nossas factras eléctricas aumentarem por que passaram a integrar uma taxa para investimento em energias renováveis. É pena não inventarem uma taxa para “orçamentos familiares renováveis”, “cuidados de saúde renováveis”, “reformas renováveis”, etc.

Foi também sem surpresa que vimos o estado, na sua grandeza e imensidão, continuar a pagar rendas de barragens que são nossas  e a subsidiar a fundo perdido (por acção do QREN) o investimento nas energias renováveis.
Quem ouvisse falar tal gente e não fosse de cá, pensaria «eh pá, em Portugal está a ajudar-se o país a se independente energicamente». Ou, «com energia nossa, nas nossas empresas, equilibramos a balança comercial e não estamos sujeitos aos elevados preços do petróleo».

Todo o discurso assentava que nem uma luva. Ajudar empresas nacionais, promover a sustentabilidade e autonomia energética…Faaaantástico. Disseram os donos da GALP, EDP, REN e outras.

Então, o que sucedeu? As “nossas” EDP’s, GALP’s e REN’s, para além de produzirem energia mais barata, para além de não terem investido um chavo na “nossa” estrutura produtiva, para além de aumentarem exponencialmente os seus lucros, o que fizeram elas? Beneficiaram o país? Depende de, quem é o país.

Agora soube-se que nos últimos 4 ou 5 anos pouparam-se 6.300 000 000 € em petróleo, com benefício para a  balança comercial. Quase 4% do PIB nacional. E de quem foi o benefício?

É, pois é, enumeremos:

  • Lucros das “nossas” empresas energéticas
  • Balança comercial mais equilibrada, o que é bom para…Não sabemos, porque, não nos diminuiu imposto nenhum
  • Lucro das empresa chinesa que comprou a EDP
  • Lucro especulativo dos accionistas das energéticas

E para nós, o povo? Que “benefícios” recolhemos?

  • A energia mais cara da Europa
  • Impostos mais altos para pagar os custos energéticos do estado e os custos futuros da privatização das energéticas
  • Empresas que vão à falência por causa da factura energética
  • Precariedade laboral e baixos salários praticados pelas empresas que prestam serviços Às multimilionárias energéticas
  • Monopólio de distribuição e produção energética
  • Preços energéticos cartelizados
  • Mais valia apropriada pelo capital quando deveria de reverter para quem investiu nessas empresas

Pois é, meus caros, a politica do Sócrates foi só vantagens. O Passos que o diga, porque essa, ele não mudou.

                                   Arre, parece que gostamos de ser roubados
Reacções:

0 comentários: