Alcoolítiquices

Esta notícia já não o é. Mas encontrei algo de interessante sobre a mesma.

Bem, longe de mim condenar a senhora deputada Glória Araújo pela sua noite de copofonia. Afinal, todos temos os nossos pecadilhos e tudo o que não quero é viver numa sociedade moralista. Julgo que o ser humano já teve disso que chegue. Contudo, o que mais me espantou nesta situação, não foi o saber que um representante do povo (em feminino, pois eu recuso-me a colocar os o/a) é capaz de apanhar uma valente piela, ao ponto tal, de ser capaz de dizer a si própria: oh, eu estou tão bem que até sou capaz de conduzir!

Já me estou a ver, naquelas noites de jogo do copo em que, tal como todos os que comparam medidas de tanta coisa, jogávamos até ver que era o primeiro a cair para o lado e, após a queda do infeliz, dizíamos: eh pá, o gajo não aguenta mesmo nada! Eu já bebi o dobro dele e ainda estou fixe!

É claro que o “estar fixe” passava por mal conseguir mater os olhos abertos ou, mais difícil ainda, em soletrar o termo “estar fixe” inteiro e de seguida. Bem, de certeza que a senhora deputada, numa noite de sexta-feira, comemorando ainda as entradas em 2013, também terá dito “estou fixe”.

Bem, vindo de uma deputada do PS, o “estou fixe” nem é uma originalidade relacionada com um estado mais ou menos alcoolizado. Afinal, o termo “fixe” associado ao PS já vem de longe.

Querendo matar mágoas pela entrada em 2013, ou querendo comemorá-la, uma vez que 2013 poderá ser o ano de retorno do PS ao poder, a verdade é que esta representante do povo português, olhando para o estado do país e para o desvario deste (des) governo, poderá ter pensado que, mesmo estando com 2,4 g/l de taxa, o seu estado era perfeitamente aceitável para conduzir um automóvel. Na realidade, há quem conduza um país inteiro aparentando um estado bem pior! Ah! E não são autuados pela PSP, nem incriminados pelo Ministério Público. O que não deixa de ser um mistério, reconheçamos.

Mas voltando ao início. Como dizia, o que mais me suscita apreensão nesta informação, não é a capacidade da Deputada Glória Araújo para se manter na estrada (não se esqueçam que as auto-estradas têm três faixas de rodagem, a senhora só tinha de acertar na do meio, em caso de dúvida). A mim, modesto membro da classe a que chamamos de “povo”, emérito anónimo “blogonauta”, o que me gera realmente apreensão é o seguinte facto: quando realizei uma pesquisa no Google com o termo “deputada Gloria Araújo” tive uma grande surpresa (ou não).

Pensam que o que apareceu no Google foram os projectos de lei, as comissões parlamentares, as “célebre intervenções” no hemiciclo, as polémicas politicas, a diatribes republicanas, as acções politicas na sua terra natal, na sua região, no seu distrito?

Não, o que apareceu, pelo menos, nas primeiras 12 páginas (12!) foram chamadas relacionadas com a taxa de alcoolémia da senhora. Foi a multa, a coima, a imunidade, o levantamento da imunidade, a queixa-crime, a ética parlamentar. Tudo o que vi, nas páginas que abri até me chatear de procurar por algo mais, foi o que está relacionado com o desvario da senhora.

Ora, isto para mim é muito grave, por fazer-me levantar um conjunto de suposições nada abonatórias para a carreira de deputada:

  • A senhora deputada para aparecer na ribalta nacional teve de cometer um desvario que, por mais comum que seja, não chega para nos tornar deputados;
  • A senhora deputada, à primeira vista, para além do desvario que cometeu, não se lhe conhece outros actos que não o desvario em causa, o que pode revelar bastante para efeitos da exigência para se chegar ao mais alto cargo da nação (supostamente);
  • A senhora deputada, mesmo depois do desvario, não teve nenhum acto que, pela sua idoneidade politica pudesse, ao menos, capitalizar para amenizar o impacto do seu desvario;
  • Mesmo na imprensa local, sempre tão ávida de publicitar a intervenção dos representantes da terra em órgãos de soberania, a senhora deputada o que consegue é, tão só e apenas, aparecer por causa do seu desvario;
  • Não aparece, nas primeiras 12 páginas do Google, nenhum emérito político da nossa praça (o que significa…o que significa!) a defender a honra da senhora deputada, por que ela vale por isto, ou fez aquilo;
  • De toda a actividade (espero que profícua) da senhora neste ano de 2013 só aparece o seu desvario, o que pode levantar dúvidas sobre a relevância das acções da senhora deputada para além do seu desvario.
Como vêem, todas as assumpções que faço a partir da pesquisa que efectuei no Google com o termo “deputada Glória Araújo” (deputada!), não me aparece, nas primeiras 12 páginas, algo de abonatório da sua acção enquanto deputada.

Isto quer dizer que nada possa dizer em defesa da senhora deputada? Posso, claro que posso:

  • Não aparece nada sobre a sua carreira de deputada. Nada! Já não é como outros…relativamente aos quais aparecem coisas bem piores do que o desvario alcoólico da senhora deputada;
  • Uma pessoa bebe um copo e aparecem (pelo menos) 12 páginas de chamadas sobre a sua bebedeira. Outros ganham comissões em submarinos, cometem fraudes no BPN, “oferecem” as nossas empresas aos seus amigos, apropriam-se do erário publico, traficam influências prejudicando o país, e se o colocarmos no Google, não aparecem de certeza as primeiras 12 páginas sobre isso. Portanto, o seu crime nem é o pior;
  • A comunicação social é tão reles que, em vez de investigar os problemas relacionados com corrupção, tráfico de influências, peculato, entre outros, anda a noticiar sobre problemas do foro pessoal de cada um.
É, pode defender-se a senhora deputada, pelo menos por comparação!
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