Com moderação

 

Ai, se a revolta matasse….Estas seriam as minhas últimas palavras e se calhar não seriam tantas.

Ouvia eu a SIC notícias, passe a publicidade, quando me deparei com um dos exemplos mais concretos da manipulação mesquinha e subliminar, a que os senhores directores de informação dos nossos órgãos de comunicação social nos sujeitam. Será que não nos podemos queixar de violência moral? Devia de ser instituída a Comissão para a Defesa das Vitimas de Violência Moral e Desonestidade Intelectual da Comunicação Social (CDVVMDICS). Esta deve ser a maior forma de agressão do nosso, perturbado, status quo.

Já estou a imaginar o que se passa em algumas das redacções jornalísticas por este mundo fora. Lembram-se da lista de palavras que os censores do tempo da ditadura salazarista possuíam? Pois é. De certeza que hoje em dia também existe essa lista, não igual, mas uma mais moderna e “moderada”, na qual são estabelecidas as devidas correspondências quanto aos termos linguísticos a utilizar em cada acontecimento actual. Consigo imaginar também, algumas das correspondências constantes da mesma:

Trabalhador – Colaborador, funcionário, empregado
De esquerda – Radical, ultrapassado, datado
De direita – Moderado, moderno
Patrão – empresário, empregador, empreendedor, investidor
Muçulmano assassinado por israelitas, americanos, ingleses – abatido, eliminado
Soldado, guerrilheiro muçulmano – terrorista
Americano, israelita assassinado por muçulmano – assassinado, homicídio, morto a sangue frio, sem dó nem piedade
Bombardeamento de alvos civis por americanos e israelitas - intervenção localizada, dano colateral
Bombardeamento de país ou soldado muçulmano a alvos militares – ataque terrorista indiscriminado, genocídio, carnificina
Tortura praticada por americano a muçulmano – Maus-tratos, violência e assédio
Tortura praticada por muçulmano a americano - tortura
Imperialismo - globalização, comercio mundial, economia, G8
Bilderberg - Palavra proibida sob pena de despedimento sumaríssimo, com processo crime às costas.

Então, o que é que o súbdito jornalista disse que me deixou tão renitente face à informação que nos passam na comunicação social?

Como sabem, uma das maiores polémicas que se faziam sentir ao tempo da conferência Ibero-americana, era a visão que os vários presentes, altos dignitários de toda uma América latina, cada vez mais incendiada, tinham sobre a questão “Honduras”.

Dizia o linguisticamente preocupado jornalista que os representantes dos países participantes se dividiam em dois. De um lado, aqueles mais identificados com a esquerda, que condenam veementemente o golpe de estado e o posterior acto eleitoral. Aqui, não esquecer que por “de esquerda” deve entender-se “Radical, extremista, sectário, revolucionário”. De outro lado tínhamos, na verborreia subliminarmente seleccionada, do jornaleiro repórter, uma facção “digamos” mais,”, “moderada”, literalmente assim.

Se a palavra “moderada” quer dizer “conservador, de direita”, ou se por “moderado” se quer dizer “aquele que se vende, aquele que, face a um poder maior, prescinde das suas crenças e princípios”, então meus caros, não tenhamos dúvidas, eu prefiro ser “radical, extremista, revolucionário”. Com muito orgulho!

Mas esta situação ainda me fez trazer à colação mais duas relações muito importantes e em nada despiciendas.

A primeira é a de que, a revolta que senti pelo termo utilizado pelo subtil jornaleiro, fez-me contar quais os países a favor e contra a agressão democrática sofrida nas Honduras (ainda não compreendi como é que os EUA não invadiram esse país, nem os Intestinos Delgados deste mundo não apareceram a incendiar a opinião publica contra esse acontecimento). Descobri, que dos 21 países presentes, só a Costa Rica, a Colômbia e o Panamá não condenam o golpe e o acto eleitoral fantoche. Todos os restantes 18 incluindo Portugal, são unânimes na condenação. Coincidências das coincidências, estes três países possuem em seu território, uma base militar imperialista dos EUA. Já estão invadidos!

Outra das coincidências foi o facto de ter sido a mesa da presidência da cimeira a assumir a declaração de condenação da agressão democrática nas Honduras. Porque será? Eu posso adiantar uma explicação. Não se realizou uma votação face à declaração porque a derrota da facção “moderada” seria tão expressiva que resultaria num grave imbróglio internacional do ponto de vista diplomático, que poderia ser visto como uma “inaceitável” (para alguns) pressão sobre os EUA. E isso não poderia ser.

Mas ainda se podem retirar mais conclusões deste facto e acontecimento. Uma é a de que se o Sócrates e o PS fazem parte da facção “radical, extremista, revolucionária” que condena a agressão ao povo hondurenho, isto só podem ser boas notícias para o futuro. Quer dizer que o Sócrates e o PS são de esquerda e defendem com radicalismo os seus ideais e princípios. O país só pode, na minha opinião, ficar contente.

Outra conclusão é a de que nas redacções dos órgãos de comunicação social se promove em grande medida, a língua portuguesa. Promove-se a estilística, nomeadamente o eufemismo, quando se trata de amenizar os erros do poder económico e imperial. Pratica-se a hipérbole, quando se trata de evidenciar e exagerar as posições de quem não está no poder económico e imperial. E pratica-se a técnica da construção de glossários e dicionários. Esta técnica, bastante apurada nos nossos dias, é praticada pela procura e registo dos termos sinónimos ou não, que podem ser utilizados em substituição de determinadas palavras e termos a que o poder atribui significado ideológico.

Os jornaleiros, antes jornalistas, prosseguem a sua função principal, a da repetição das gordas, a da cantoria dos pregões e a da corrida á maior venda de audiências e jornais que for possível. Aliás, como se pode facilmente depreender, o jornalista é um profissional em desuso, pois como o que se vende é a imagem, vale mais um designer, um informático, um artista gráfico do que um jornalista, que são, normalmente estagiários mal pagos. Assim fazem o que lhes mandam sem questionar. Resultado, só lhes resta ser jornaleiros, pois a redacção, essa, está-lhe vedada e é reserva de meia dúzia de directores de informação, colocados cirurgicamente nos lugares, e de alguns assessores.

A presidência da cimeira declarou:

"Inaceitáveis as graves violações dos direitos e liberdades fundamentais do povo hondurenho". E defenderam que "a restituição do Presidente Zelaya ao cargo para o qual foi democraticamente eleito até completar o seu período constitucional é um passo fundamental para o retorno à normalidade constitucional".

Hugo Dionísio
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