A verdade da mentira!


Isenção! Mais uma vez a tanga da isenção! Será que nunca maiss e calam com isso?
Existem duas ou três palavras do nosso lexico que, quando proferidas pelos pastores sacerdotes da nossa “economicocracia”, me fazem explodir de raiva, o que só não acontece porque a mãe natureza, na sua imensa sabedoria, dotou-me dos mais variados orifícios de escape.

Então que simples, vulgares, imaculadas e singelas palavras serão essas? Simples, meus caríssimos, são elas a “isenção”, o “consenso” e o “bom senso”.

Tão simples palavras? O que terão elas de mal? As palavras? Nada! As pessoas sim! Como as palavras permitem expressar ideias de pessoas, então, as duas coisas juntas podem ser bastante perigosas. Quando? Quando utilizadas de forma idenvida.

Mentiras existem que de tanto serem repetidas na comunicação social corporativa, por momentos, para alguns inadvertidos e crentes seres, quase se transformam em verdades insofismáveis e inquestionáveis. O mesmo se passa com as opiniões. Coloca-se um sacerdote da “economicocracia” que nos governa a emitir opiniões, esta opinião, que todos também têm, mas nem todos podem expressá-la de forma massificada, e passado alguns dias esta simples opinião passa a notícia e de notícia a facto e de facto a verdade absoluta. O jornalismo actual, mais executado por jornaleiros (que querem é vender jornais) do que por jornalistas, aplica a metodologia noticiosa ao contrário. Em vez de: verdade-facto-noticia-opinião, temos: opinião-noticia-facto-verdade. Compreenderam?

Eu dou-vos um exemplo concreto:

a)      Muitos dos sacerdotes opinam que o estado ocupa demasiado espaço, nem devia quase de existir, apenas um estado policial (até a policia pode ser sub-contratada...)
b)      Vêem para a televisão afirmar a sua opinião, que nos entra nos ouvidos a toda a hora,  minuto e segundo. E como pensam assim, vêem dizer que a função pública tem demasiados trabalhadores. Até aqui...tudo bem. São opiniões.
c)      Passam à fase seguinte. Sem apresentar quaisquer dados estatísticos, começam a dizer que há demasiados funcionários públicos em Portugal, tantos que, Portugal é o país da europa com mais funcionários publicos por habitante.
d)     No outro dia temos vários jornalistas corporativos a escrever sobre o assunto e a perguntar aos seus convidados o que acham sobe o facto de Portugal ser o país da Europa, quiçá do mundo, com mais funcionários públicos por habitante.
e)      Passamos a ouvir, no metro, na rua, no café e até em casa que Portugal é o país com mais funcionários públicos da Europa.  Soa a notícia em época de restrição orçamental.
f)       Assumida a verdade, o governo “economicocracta” começa a dizer que não vai colocar tantos professores, que vai congelar salários e carreiras dos funcionários públicos...Enfim, o que todos sabemos.

Vemos assim, como se produziu uma verdade absoluta e insofismável. Com um pequeno senão...é que a premissa, o ponto de partida, o facto, simplesmente não existe ou, neste caso, é falso. Contudo, o corolário do processo jornalistico corporativo não é transmitir a verdade, é manipular as mentes para que aceitem a transformação da realidade num determinado sentido. Isto, tendo em conta que a comunicação social actual é corporativa, economicamente corporativa, soa a 1984 do Orwell, ou não?

Ora, de acordo com os “Cadernes de l’emploi” de 2002, da Fundação Europeia para o Desenvolvimento das Condições de Vida e de Trabalho, Portugal era apenas, e só, apenas, o 18.º país da UE com mais funcionários publicos por habitante. Na frente, os países de sempre, os nórdicos.

Engraçado, não? Seria por aqui que o processo jornalistico se devia iniciar e não pela negação da realidade. Portanto, julgo que a crise de verdade a que assistimos hoje em dia, em todas as facetas do nosso quotidiano, se deve a propaganda subliminar que nos rodeia, qual cortina de fumo, que de tão densa, não nos deixa ver o chão por onde pisam os nossos pés. O ruído é tanto, que não ouvimos a música, só o eco. Vivemos num mundo de sombras e nessa perspectiva, meus caros, a Internet é uma benção, qual feitiço virado contra o seu feiticeiro. É ela que nos pode dar voz. É por ela que os telejornais corporativos se tornam meros programas de entretenimento, porque depois de vermos a realidade, só nos podemos rir. Para mim, o telejornal tornou-se o maior programa de humor negro e de piadas de mau gosto da actualidade. De tão sério que é o problema, só nos podemos rir e pensar, como foi possível chegarmos aqui!

Mas, voltando ao inicio, o que é que palavras como “isenção”, “consenso” ou “bom senso” têm a ver com isto?

Ouvia eu a TSF, e o genérico de um programa de análise política dizia: “análise polítitica actual e com toda a isenção”. Quem garante esta isenção? Nada mais do que Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes, os Pedros do bloco central, um de cada pólo, os dois do mesmo lado.

Diziam estes senhores que só dois dos partidos com assento parlamentar não se preocupam com o país. A CDU e o BE. E porquê? Porque não estão a negociar o orçamento com o governo, como é o caso do CDS e do PSD.

Estes senhores não dizem que estes partidos têm uma visão diferente, até podeiam dizer que na sua opinião têm uma visão errada. Podiam caracterizar como quisessem. Mas não, a conclusão é que estes partidos não estão preocupados com o país e querem tirar dividendos politicos disso. Isenção, pois é...

É claro que quem tiver dois olhos de testa, um orçamento que está a ser trabalhado com o CDS nunca poderia ser um orçamento susceptível de ser trabalhado pelos outros dois partidos. Mas expliquem lá isso a estes dois senhores que, ao ouvi-los, não os conhecesse eu e acharia que eram do mesmo partido, tal o acordo de todas, todinhas, as suas opiniões.

É claro que a direcção de um orçamento onde entra o CDS e o PSD, só pode ser uma, e nós sabemos qual é, por muito que doa a alguns PS’s que julgam ser de esquerda. Como dizem os americanos “I’ve got news for you”, o PS não é de esquerda!

Sobre a “isenção” estamos conversados. Mas e as outras? Dizem estes senhores que os motivos que levam estes três partidos a negociar  são “consensuais”. Consensuais? Para quem? Para que lado? O consenso absoluto não existe, é uma falácia ou utopia. Em democracia não é sequer desejável. Da discussão nasce a luz e sem discussão, tal como estes senhores pretendem, não há luz e andamos todos nas “sombras”. Nas sombras ninguém se conhece, todos são iguais, tal como as convicções plíticas detes senhores e destes três partidos. Todas na mesma direcção, nuance aqui, nuance ali, no essencial, pretende-se preservar a mesma coisa.

O “consenso” é bom, quando resulta da discussão, da negociação e da participação, não da imposição ou do afastamento. Não concordamos com aqueles, vamos afastá-los ou vamo-nos afastar deles e fazemos o consenso com outros. Com outros? E então os outros? Onde está o tal “consenso” se outros ficam de fora? Seja por que motivo for?

E o “bom senso”? Bem o bom senso, nas palavras dos dois ditosos senhores sacerdotes, é imperios neste momento de crise e é de “bom senso” chegar a acordo. Voltamos ao mesmo. Três têm bon senso, dois não! O que é o bom senso? É algum tipo de moral individual? Será ética? Será a adesão a uma ideia só porque ela é tão forte que a sua aceitação é menos danosa do que a sua negação? E quem avalia isso? Cada um de nós?

Conclusão: O bom senso não existe. O bom senso não é nada.

Estas três expressões são o retrado idealistico do cinzentismo em que vivemos. Cinzentismo porque nãos e quer a cor. A cor nasce da diversidade e a diversidade não é bem vinda.

Quantas vezes ouvimos: “neste país nãos e pode fazer nada, há sempre alguém contra”, “as pessoas não sabem nada, não têm cultura”, “a culpa disto tudo é dos sindicatos que estão sempre contra e movem-se por interesses políticos”.

Engraçado. Não será a liberdade de expressão um bem em si mesmo? Que danos poderá criar o desacordo quando o que se quer fazer é o bem? Não terá o povo sempre razão? Não será essa uma crença básica da democracia? Mesmo que não concordemos com isso? A democracia não é isso mesmo? O povo a decidir o que quer? Com todas as consequências que daí possam resultar? Serão os sindicatos os unicos a mover-se por interesses politicos? Ou todos nos movemos por interesses desse tipo?

A propóstito, sabem quais são os países com amior taxa de participação sindical? Com maior taxa de conflitualidade sindical nas empresas?

Vão ver o livro verde das relações laborais de 2006 e não acreditem na “verdade”.

Já agora, sabem porque é que os ditadores ditam? Porque as pessoas não sabem. Porque há sempre alguém contra. Porque alguém tem de saber. Porque o povo é burro. Porque os sindicatos é que são os culpados da crise.

Moral Universal? Nem a da igreja católica, nem a da igreja liberal, nem de igreja alguma.

Viva a democracia! A mais isenta, a mais consensual a de maior bom senso!
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