Sobrevivente qualificado

Não concordo minimamente quando dizem que o povo português é um povo pouco qualificado. Afinal, como demonstrarei, tudo se resume ao facto de distinguirmos se estamos a falar de qualificação formal, obtida nos estabelecimentos de ensino, ou de qualificação informal, baseada na experiência do dia a dia. É que nesta última, meus caros, nesta última…os portugueses são com toda a certeza o povo mais qualificado do mundo!

Até nas chamadas ciências exactas, o português desenvolve, no seu dia a dia, um nível de qualificações de tal forma altíssimo, que, se avaliação houvesse às mesmas, chegar-se-ia facilmente à conclusão de que o Português é, afinal, muito bom na matemática. Talvez não se esteja a utilizar a metodologia de aferição mais correcta.

Foquemos as atenções nos pais e mães de família que, dias após dia, mês após mês, têm a necessidade de se acertarem continuamente com as exigências de sobrevivência impostas pela nossa impessoal sociedade. É preciso muito saber.

Entre contas ordenado, cartões de débito, cartões de crédito, cartões de débito-crédito, cartões de crédito ao consumo do Jumbo, Worten, Fnac, Sportzone, empréstimos Cofidis, renegociações de crédito, renegociações de spread, renegociações de prazos, agrupamentos de créditos e uma multiplicidade de produtos financeiros nos quais, incontornavelmente, o português médio vai suportando a sua sobrevivência. Ninguém melhor que ele domina estes produtos, as suas regras de funcionamento, possíveis conjunções (tapa de um lado e destapa do outro) e regras de incumprimento. Nesta vertente da sua vida, o português é o mais dotado do mundo em títulos de crédito, produtos financeiros e gestão de carteiras de…passivos (pensavam que eram activos, não!). Esta competência baseada na experiência do dia a dia é importantíssima. Ainda para além de fazer destas pessoas umas máquinas de calcular humanas, nas quais a operação matemática de subtrair ao orçamento disponível, ou a operação de somar ao saldo negativo da conta bancária se faz quase automática e instintivamente. Se a matemática for só somar e subtrair, os melhores matemáticos do mundo são portugueses. E assim se compreende porque é que os bancos são os que mais lucram no nosso país. Com tanta mão-de-obra altamente qualificada disponível, a produtividade e competitividade são enormes.

Outra matéria na qual o português é muito bom e experiente é na cronometragem e contagem de tempos. A corrida contra o tempo faz-nos comportar como autênticos relógios, para que não cheguemos atrasados ao trabalho ou à escola. Qualquer segundo que se consiga reduzir no corte da barba, no banho ou nas cosméticas, é importante para  ultrapassar-se o primeiro obstáculo do dia, o de sair de casa sem nos esquecermos de nada. Casos há em que se conhecem pessoas que saem sem sapatos, casaco ou mesmo calças, mas também podem ser coisas mais usuais como, o telemóvel, as chaves, a mala, entre outras coisas. Sem carro…humm…sem carro…é que não conheço ninguém que saia de casa sem essa importante peça de mobiliário, vestuário e de transporte, que confere um estatuto social imprescindível a qualquer português.

Mas é aqui que surge o maior paradoxo de todos, é que o facto de andarmos sempre de automóvel não faz de nós excelentes condutores. Se fizesse, ganhávamos todas as corridas de alta competição, mas não, somos mas é campeões de acidentes rodoviários.

Contudo há uma ou duas coisas em que somos muito bons com carros e nas quais temos muita prática. Estacionar é a primeira, estacionamos nos locais mais impossíveis de imaginar e chegamos a pensar que os passeios são para os carros e as estradas para os peões. A outra é limpar e lavar o carro, havendo pessoas que passam horas infindáveis, fins-de-semana inteiros de volta do seu namorado ou namorada de quatro rodas. A outra é o equilibrismo de falar ao telemóvel enquanto se conduz. Nesta modalidade malabarística somos os maiores do mundo! Como adoramos conduzir de telemóvel ao ouvido, ou então, a falar para o ar como maluquinhos que falam com vozes que pairam na sua cabeça. É um paradoxo enorme, aliamos aquele que queremos que seja o nosso maior objecto (o carro) com aquele que queremos que seja o menor (o telemóvel). É o derradeiro paradigma existencial português. Já não bastava português pequenino em carro grande, agora temos português pequenino em carro grande com telemóvel minúsculo! É uma espécie de oito ou oitenta num mesmo ser.


Outra competência ou qualificação importante surge no caminho para o trabalho. Novamente a matemática ocupa o espírito do português. A necessidade de utilizar este conhecimento científico surge na primeira bomba de gasolina. Quanto combustível comprar para esse dia? Bem, se desligar o motor nas descidas, nas filas e semáforos, talvez consiga fazer o percurso com 5 euros. Conduzir torna-se um desafio enorme mas com vantagens para a sociedade a diversos níveis, poupa-se combustível, emitem-se menos gases e o meio ambiente agradece. O condutor treina o cálculo matemático, principalmente ao nível das médias simples ou ponderadas e torna-se especialista em cronometragem de calibragem de tempo/acção. Conduzir assim, passa a ser um meio de auto formação universal. Num país onde as empresas não querem formar os trabalhadores, esta é uma forma nada desprezível de cada um o fazer. Afinal, o facto de cada um levar o seu carro todos os dias tem a sua utilidade!

Outra competência é treinada, sensivelmente duas horas depois, principalmente quando já se está cansado de cálculos, cronometragens, sinaléticas gestuais e vocábulos de bola vermelha, quais grunhidos de fera ferida pelas complicações da vida. O desafio que leva ao conhecimento e à qualificação é o estacionamento da viatura, funcionando como uma espécie de módulo 2 da auto formação diária. Já ouviram falar de formação em contexto de trabalho? Esta é a formação em contexto de vida. A melhor forma de formação para quem não gosta de frequentar formação. Se calhar isto até dá jeito às empresas…Se calhar elas até pensaram nisto quando não investem em formação. O que é que elas têm a ver com isso? O mesmo que aquele patrão do Porto que dizia que pagava salários baixos aos seus trabalhadores, porque no norte, as pessoas têm sempre uma pequena hortinha para plantar alguns víveres. Chama-se a isto, conciliar o trabalho com a vida familiar. Os patrões preocupam-se com isto, estão a ver?

Então ao estacionar, têm de resolver-se vários problemas:

Problema 1: O cálculo de área. Com a corrida que existe aos lugares sem marcação EMEL, cada vez mais tem de estacionar em locais cada vez mais pequenos. Aqui, a imaginação do português médio chega a ser surpreendente, consegue colocar objectos em áreas, cujo tamanho fazia prever que tal não fosse possível. O português torna-se especialista em dominar as leis da física a seu bel-prazer. Entre riscos, empurrões safanões, voltas e reviravoltas, até Einstein se revolta no seu túmulo. Quem é que diz que somos maus a físico-química?


Problema 2: O controle do tempo e metodologias de amostragem e observação. Depois de estacionado há que prever de quanto em quanto tempo passa o polícia da câmara. Pois como o local não está marcado pela EMEL, o mais provável é que lá nem se deva estacionar, pelo que, e aqui o cálculo das médias volta a ser indispensável, também sendo necessário calcular a probabilidade de bloqueio do automóvel. E a conta não é fácil, pois é preciso cruzar o que se pagaria diariamente por um lugar num espaço de parquímetro, com o que se paga mensalmente para mandar retirar o bloqueador da roda do automóvel. Mas aqui, nesta ultima solução há uma vantagem que faz mandar às malvas a maioria das regras, sabem qual? É que enquanto o estacionamento do parquímetro tem de ser pago na hora e no local, o pagamento para retirar o bloqueador das rodas pode ser pago com cartão Visa. Ou seja, dá para mandar a conta lá para o futuro, que já está mais do que hipotecado, logo, não se notará a diferença. E nesta competência o português não é grande coisa, a da futurologia, pois as suas previsões falham sempre. O melhor é fazer como o outro, prognósticos só no fim!

Problema 3: Estudo das alternativas e solução de problemas (problem solving): Caso só existam lugares pagos, há que inventar estratégias de gestão que permitam contornar alguns custos perante uma despesa tão incontornável como a que está associada ao uso do automóvel. Pode optar-se por dar uma moeda ao arrumador e assim, deixa-se o vidro do automóvel um pouquinho aberto, permitindo ao arrumador lá colocar o título respectivo, em caso de passagem dos fiscais da EMEL. Outra alternativa é a do cálculo do tempo versus probabilidade. Coloca-se a menor quantia possível logo antes da passagem do fiscal e depois volta-se a fazer o mesmo aquando do seu retorno e por aí fora. O problema é se a escala muda. Nesse dia há bloqueador, mas mesmo assim compensa largamente o pagamento sério e completo. Muitas outras alternativas poderão ainda ser estudadas, pois as barreiras da sobrevivência tornam o português um ser arguto, esperto e tremendamente criativo. Já viram se Portugal usasse esta criatividade para aspectos da vida menos incontornáveis mas mais indispensáveis? Pensem nisso.

Problema 4: Defesa pessoal: Na maior parte dos dias a coisa vai só com umas bocas, algumas asneiras e às vezes meras ameaças de ofensa à integridade física. Mas dias hão em que a competição pelo lugar de estacionamento é tanta que há que puxar dos galões da defesa pessoal. Este é o local de treino favorito do português. Exercita-se e treina os dotes de lutador. É o exercício diário da manhã. Ainda dizem que os portugueses fazem pouco desporto.

Ora, quando se chega ao trabalho, já se praticou economia, gestão, finanças, alguma física, muita engenharia e até luta livre. Ah, já me esquecia, a sua argúcia em contestar coimas da EMEL e da Polícia, também o fazem praticar algum direito. Já não lhe falta quase nada para ser Doutor. E ainda dizem que os Portugueses têm poucas qualificações. Basta substituírem os critérios de medição. Qualificações para quê? Para a vida ou para o trabalho? É uma questão de conciliar uma coisa com a outra!

Dizerem que os portugueses são pouco qualificados é que é um erro que políticos, patrões e outros tubarões cometem. Num pais caótico os portugueses mandados conseguem sobreviver. Os outros não conseguem fazer sobreviver o país em que mandam. Será melhor trocar então!

 Viva a verdadeira qualificação ao longo da vida

 Hugo Dionísio
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