Da casa de banho à política vai o passo de um casamento!




Numa tomada de posse de uma pequena junta de freguesia, a lista maioritária, composta por dois partidos, conseguiu eleger 4 representantes em 9. O partido que ficou em segundo lugar elegeu 3 e outros dois partidos elegeram mais um cada.

Até aqui tudo bem. Nas semanas subsequentes ao acto eleitoral para as autárquicas, e antecedentes à tomada de posse, iniciaram-se as movimentações com vista à constituição de um executivo, com 4 elementos e que teria de ser aprovado por maioria simples na primeira sessão da assembleia de freguesia, que nesse dia e local tomava posse.

Facto 1. O partido maior da coligação, ao enumerar os membros que queria colocar no executivo, não incluiu um membro do partido mais pequeno. Do tipo, primeiro usámo-los e agora deitamo-los fora! Ou melhor…Casei contigo e agora quem manda sou e se falas muito…corto-te o pio!
Facto 2. O partido mais pequeno da coligação, sentindo que o acordo não estava a ser cumprido, decidiu retirar-se da coligação. Divórcio? Nem pensar, o pretendido era mais uma espécie de envenenamento fulminante!

Facto 3. O partido maior da coligação, decidiu contactar os restantes partidos com vista à celebração de um acordo pós-eleitoral que lhes garantisse a aprovação do executivo da junta na assembleia de freguesia. Para tal, prometeram o cargo que não haviam atribuído ao partido com quem tinham o acordo de coligação pré-eleitoral. Adultério? Antes morto à pedrada!

Facto 4. Nenhum dos outros partidos aceitou o cargo ou acordo, pelo que, no dia da tomada de posse, ainda não era garantido que se conseguisse aprovar um executivo para a junta. Afinal todos ouvimos falar de famílias desestruturadas e mono parentais.

Na sequência destes acontecimentos, os nervos andavam à flor da pele. Por entre telefonemas de bastidor, conversas nos cantos e recantos, promessas cumpridas e comprometidas, mas que, pela lógica, não eram para cumprir, os vários partido lá iam fazendo o seu jogo político, qual jogador de poker sem cartas, mas com uma lata imensa para o bluff.

Aliás, as estratégias delineadas, pela capacidade de improviso fariam corar o melhor dos estrategas. A verdade, é que à chegada ao local da tomada de posse, logo me confrontei com o cheiro nauseabundo a política de trazer por casa, mas não por qualquer casa, de trazer por… casa de banho.

Pelo que, a sucessão dos factos que em seguida enumerarei não mais será do que o desenrolar de um rolo de papel, daquele papel que todos sabemos para o que serve e com o qual fazemos coisas mais limpas do que a sujidade que abunda na consciência de alguns daqueles que, infelizmente, se constituem (pelo menos é o que eles acham) como a reserva político-estratégica da nação. O que dava vontade de fazer era puxar autoclismo e vazar tudo, desinfectar de seguida e voltar a fazer outra vez, a ver se desta saía algo mais limpo.

Mas vamos lá ao “rolo” de acontecimentos:

Volta 1: quando cheguei, na qualidade de membro de uma das listas concorrentes, deparei-me com uma reunião de emergência, em plena rua. Aquele que se me apresentou como o “núcleo duro” do partido mais pequeno que havia concorrido à coligação, tinha ido ter com todos os partidos da oposição, pedindo-lhes que votassem contra a constituição do executivo a apresentar mais tarde, pelos seus, até aí, parceiros de coligação, na já muito desgastada assembleia de freguesia (ainda nem tinha tomado posse, a assembleia);

Volta 2: É claro, que nenhum dos outros partidos revelou qualquer compaixão pelo partido vítima de violação dos deveres conjugais (È sempre a parte mais fraca que se lixa, mas, quem os manda casar por interesse?), e nesse sentido, mantiveram a mesma perspectiva quanto ao sentido de voto que pretendiam evidenciar algum tempo mais tarde;

Volta 3: Enquanto isto, andava o marido da coligação, também de roda dos partidos da oposição (principalmente dos que haviam eleito só um representante), oferecendo o que havia negado à mulher, o cargo de 1.º secretário da junta. Os partidos da oposição, por não quererem meter a colher entre homem e mulher, não aceitaram a oferta, não acreditando em ofertas natalícias antes de 25 de Dezembro;

Os ânimos iam ficando cada vez mais pesados e agressivos. A violência doméstica era eminente. Nunca uma luta por um lugar numa casa de banho tinha ido tão longe. De violência física não me lembro, não presenciei, mas também não nego a sua existência, provavelmente terá ficado fechada entre as quatro silenciosas, surdas e mudas paredes do lar conjugal. Mas violência verbal, moral e ética, meus caros, essa ia crescendo como os lucros das gasolineiras que nos furtam o nosso dinheirinho diariamente.

Os corredores do Centro de Dia para Idosos, inaugurado nesse próprio dia, estrearam-se com aquelas que deverão ser as conversas mais animadas, mal criadas e mal intencionadas do resto dos seus dias. A não ser que seja um Centro de Dia para políticos reformados, aí, já não digo nada.

Ele eram ameaças de quebra da coligação ao nível nacional, ele eram ameaças de se desfazer uma amizade que já prevalecia, entre interesses mesquinhos e egoísticos, há mais de trinta anos (pelas palavras dos eleitos, é óbvio), ele eram ameaças de divórcio sem retorno possível, condenando os cônjuges à mais violenta das solidões políticas, uma espécie de viuvez antecipada, sentida mas não concretizada.

No meio disto tudo, populares havia que, presenciando todo este espectáculo circense, mas daqueles circos de carroça, em que o carroceiro é tratador dos burros, monta a tenda e no fim é palhaço (até aqui a similaridade é enorme, coincidência? Não, este palhaço é honesto, os outros, nem por isso), dizia, populares havia que iam abandonando a sala, revoltados com o espectáculo, pois o bilhete vendido e o programa entregue não faziam prever aqueles números.

Mesmo assim, numa sala cheia de curiosos, que resistiram até ao último momento para ver como acabaria a desgraça, lá se deu início à tomada de posse. É durante o discurso do novo presidente da junta (acompanhado de demasiado perto pelo anterior presidente, que depauperou os cofres da junta e se prepara, mesmo assim, para lá ficar como assessor, qual amante cuja paixão é mais forte do que o medo de ser apanhado) que se dá a reviravolta no enredo deste Sketch do “Gato Fedorento”. Durante o seu discurso, o anterior presidente (cessante mas não cessado) vai falar com o “núcleo duro” do partido mais pequeno da coligação e diz-lhe que afinal aceita colocar o seu eleito no executivo da junta. Ah ah?! È aqui que a violência doméstica acaba. Afinal há lugar para os dois naquela casa de banho!

Na sequência do retrocesso verificado ao nível do abuso de posição dominante (diz a bíblia que Eva tem de obedecer e servir a Adão), o senhor “Núcleo Duro” decide chamar o representante eleito do seu partido, já sentado por entre os outros representantes. E não é que, esse representante é o seu filho? Engraçado não é? Coincidência? É que numa democracia não há sucessão dinástica, ao que dizem.

Então, lá vem o filho do casal (pois o pai é que tinha consumado o casamento, pois, afinal, também é eleito cessante mas não cessado da anterior assembleia de freguesia que acabava ali as suas funções) chamado pelo papá, e recebe a instrução final: - Vota sim, que já tens lugar no executivo, prometido pelo presidente cessante mas não cessado!

Bem, se algum dia tiver dúvida do que é uma expressão de alívio, lembre-se ou imagine a expressão que terá manifestado este filho, que finalmente conseguiu aliviar-se de toda a tormenta que lhe tolhia os intestinos e para qual já tinha o rolo de papel à espera. Vejam agora, o que vai ser de desenrolar de papel higiénico naquele executivo!

Então o fulano que tinha pedido para votar contra, agora vai votar a favor, uma parca meia hora depois? Bem, é verdade que meia hora é pouco tempo para a resolução de uma desavença conjugal, mas é muito tempo para a resolução de um problema de trânsito intestinal.

Então, por verborreias e diarreias, lá foi votado o executivo e com a abstenção de um dos partidos que tinha eleito só um representante, lá passou o novo executivo, constituído pelos novos membros mais os membros cessantes e não cessados.

A verdade é que depois de queixas à PJ por desvios de verbas dos cofres da junta, o partido que as desviou lá continua com o seu novo presidente, com o seu velho presidente, com o seu novo executivo, com o seu velho executivo (aquele que não tiveram lata de fazer aparecer nas listas eleitorais) e com todas as intenções futuras, previstas em papel de propaganda, mas não concretizadas nem concretizáveis nas cabeças propagandeadas e propagandeadoras. Enfim, é o velho desfasamento entre a promessa e o que é realizado, tal como em qualquer casamento, o noivo nunca é à medida, ou em qualquer problema de trânsito intestinal, o que sai, não é de perto nem de longe, correspondente ao tamanho daquilo que a vítima desejaria ter saído.

Cheira mal esta política? Pois cheira. Mas isto é numa junta de freguesia, agora vejam numa câmara, num governo. O mal, é que muitos dos nossos políticos são extremamente coerentes nas suas acções, fazem na política o mesmo que sempre fizeram na sua…casa de banho!

Já agora, a título de informação, a coligação era entre o PSD e o CDS, os outros partidos eram o PS, CDU e BE. Se calhar, nem todas as sanitas são receptáculo do mesmo tipo de material!

Hugo Dionísio
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