Sons da Alma



Estou num café, mas podia ser num teatro, numa reunião, numa sala de formação ou num transporte público, porque o Português não perdoa…

De em lado ouço um pouco do último hit anglo-saxónico popularucho em primeiro no Top das vendas discográficas. Raio de país este que confunde quantidade com qualidade, aparência com substância e harmonia com melodia. Este complexo de acharmos que o estrangeiro é sempre melhor que o nacional…

Passado algum tempo ouço um pouco de jazz, de Miles Davos a Coltrane e agradeço aos meus pais terem-me concebido e feito nascer neste culto e evoluído país, amante de gostos requintados e extravagantes…

Mais alguns segundos e já estou a ouvir a última do Quim Barreiros, e praguejo contra a ignorância, a imbecilidade e a incultura que continuam a grassar neste país 35 anos após o 25 de Abril…

Ainda não acabei os insultos e já ouço uma Kizomba. Que país alegre e com ritmo, vazio…vazio, mas mesmo assim colorido de forma tão berrante quanto a altura do som que ouço…

Por entre coloridos e floridos chego mesmo a ouvir a última do Tony Carreira e logo retrocedo na cor e na alegria. Nesse momento chego mesmo a chorar, tal a tristeza de pensar onde chegámos sem querer saber para onde vamos, tipicamente português. Que coisa mais fácil de ouvir não existe!

De repente, vindo não sei bem de onde, como um trovão, ressoa, qual martelo pneumático, uma sonda metálica que perfura os meus ouvidos sem dó nem piedade. Alguém é capaz de ouvir isto? Será isto rebeldia? Será isto querer marcar a diferença? Não chego a perceber.

Logo depois ouço, ao longe, vindo de forma subtil, uma sonoridade tribal, meio étnica, a fazer lembrar o retorno às origens e penso que talvez neste país ainda haja quem ame a natureza e a paz de espírito…

Ainda me encontro em meditação, mas acordo de repente do estado letárgico em que entrei para ouvir o mais alto, desclassificado e tradicional toque de campainha. Que raio de falta de gosto, que cinzentismo, que falta de ambição, de espírito, de capacidade criativa…

O concerto segue com musica electrónica que me faz entrar na era espacial. Chego a pensar que deixei este país em direcção ao futuro. Uma coisa e outra não são, claramente, compatíveis. Algo parece deslocado naquele som. O futuro aqui deve ser uma qualquer discoteca onde todos se olham, tocam e no fundo…nem se vêm. As aparências enganam…

A meio da viagem sou travado por um sons animalescos, burros, cães, cavalos e outras bestas que me fazem lembrar imediatamente algumas pessoas…

Ouço, entretanto, uma guitarra portuguesa, portuguesinha de todo, acompanhando uma voz tão triste quanto magnifica, tão doce como deprimente, tão bela como escura, tão cinzenta como pacífica e penso…que raio de fado o nosso!

Estes telemóveis podiam ser espelhos…
Hugo
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