Lar...doce lar! Blarrghhhh!!!!


Ainda o Pingo Doce (passe a publicidade). Elogiava Pedro Marques Lopes, participante no programa Eixo do Mal na SIC Notícias, o facto do Pingo Doce e, concretamente, o seu accionista principal (Soares dos Santos), possuir uma Fundação com objecto social variado com vista à promoção de diversos apoios sociais e caritativos. Dizia o eminente senhor que, tão nobre actividade, haveria de ser enaltecida aquando da condenação da cadeia de supermercados e dos seus agressivos actos propagandísticos, com ênfase para os do 1.º de Maio/12.

O facto é que, estes senhores auto-colados ao sistema vigente, tratam estes processos de apoio social, como uma espécie de indulgência que os ricos-homens da actualidade pagam para se redimirem das atrocidades e abusos por eles cometidos no seu dia a dia, quando mais não são, na esmagadora maioria dos casos, do que pura propaganda comercial.

Aliás, nas palavras de tão nobre defensor, poderíamos considerar mesmo uma espécie de 1000 anos de perdão, ou até, de perdão original. Ou seja, tal acto de solidariedade é susceptível de perdoar à partida toda e qualquer atrocidade cometida aos mesmos que as suas fundações visam apoiar. Todos conhecemos as práticas medievais de perdão dos pecados dos maiores carniceiros, alguns deles até santos se tornaram. Por isso...não se admirem. O que pensávamos era  estarmos muito longe de tal realidade!

A verdade é que, este advogado do diabo (do diabo? sim, do diabo...afinal para que é que deus, na sua imensa bondade, necessitaria de advogado? Só o diabo deles necessita porquanto todos desconfiarem dos seus actos), de tão preocupado que estava com a salvação de alma tão caridosa, publicamente, assumiu sem rodeios a defesa da sua integridade, não fosse a sua alma separar-se do corpo e em vez de se juntar à bolsa criadora dos etéreos mercados celestes, ficasse aprisionada nas malhas da humana condenação, pelas atrocidades cometidas. Este senhor Pedro, fez-me lembrar o auto da barca do inferno, mas ao contrário. Os ricos salvam-se e os pobres vão para o inferno.Com tal guardião da porta, poderão estes senhores estar certos de que a suas preces serão sempre bilhete de salvação.

Em conclusão, para este dotado defensor das esferas celestes, portador de um conhecimento transcendente,  apenas acessível aos mais fidedignos iniciados das forças Marketingianas, estão justificados e perdoados, sem mais, actos como:

- Sediar o grupo na Holanda para não pagar impostos em Portugal
- Fazer incidir os descontos promocionais sobre os fornecedores, de forma unilateral, aproveitando-se da sua dimensão para enfraquecer e aniquilar a vontade negocial dos fornecedores
- receber num dia e pagar 4 meses depois, aproveitando o dinheiro dos fornecedores para aplicar na especulação
- pagar ordenados de miséria aos trabalhadores que tem, sem qualquer respeito pelos seus direitos sindicais, perseguindo os mais de 10.000 que fizeram greve
- não pagar horas extra-ordinárias e obrigar trabalhadores doentes e aleijados por acidente a trabalhar escondidos do publico, por razões óbvias
- ter fornecedores polacos e chamar aos seus produtos (porque aqui embalados), produtos portugueses
-....

A lista de malfeitorias não mais parava, daí que, qualquer perdão a ser atribuído, teria de o ser sempre a priori, tal a variedade de patifarias e a fertilidade de ideias para as mais desvairadas sortes de agressões sociais.

A verdade é que, os danos sociais provocados por tão diligente atitude são, como se sabe, muito desproporcionados. Não basta dar umas migalhas para apagar tudo o que de mau se faz, nem o facto de se vir com a ideia de que.."ao menos este dá qualquer coisa", pode colher qualquer compensação. A verdade é que tais migalhas mais não são do que etapas de um processo interessado de marketing.

No caso patente dos 50% do primeiro de Maio, já para não falar das trabalhadoras que naquele dia  a si dedicado, tiveram de trabalhar dois turnos e tal foi o esforço que a maioria das caixas nem conseguia mexer os braços no dia seguinte e mesmo assim lhes foi exigido o ritmo usual de trabalho, a verdade é que, se por um lado faz 50% de desconto, por outro...encaixou 11 milhões de euros em cash e colocou o país a falar do Pingo Doce mais de  uma semana.

Ainda tiveram o descaramento de dizer que vão fazer mais destas...o que pode nem ser verdade, uma vez que o objectivo pode ser apenas o de manter as pessoas atentas, indo ao Pingo Doce.

Agora, o mal que estes descontos fazem é enorme. Aos fornecedores pagam-se menos 50% do que previsto para aquelas mercadorias. Os fornecedores, já esgotados, pois tratam-se de PME's e micro empresas, vão repercutir a quebra de receita sobre os outros fornecedores e sobre os trabalhadores, despedindo e pagando salários mais baixos. Uma vez na miséria, ficam totalmente dependentes deste tipo de promoções do Pingo Doce, agindo como na selva, na avidez da procura dos produtos cujo stock não resiste a tão desenfreada procura.

Conclusão, este tipo de práticas, atrás referidas e agravadas por este tipo de promoções, absolutamente selvagens, promovem a desagregação social, desagregação essa que nem 1000 fundações Soares dos Santos resolveriam. Então, este senhor prejudica-nos nos impostos que não paga, nos direitos sociais e laborais cujo exercício recusa,  nos salários de miséria que paga, nas famílias que desestrutura pela precariedade laboral que incute nas relações laborais que estabelece e na exploração selvática que faz incidir sobre os fornecedores nacionais mais pequenos.

Vejam agora o deve e o haver e pensem lá se o perdão original que o senhor Pedro Marques Lopes lhe atribui, tem alguma razão de ser.

E depois...vêem-se estes senhores como construtores de coisas e não como parasitas. Ah...ainda dizem que já não vivemos na monarquia!
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