Desumano, demasiado Desumano.

Alemanha...Frankfurt...capital financeira do país. Dezenas de milhar de manifestantes (os próprios dizem 40 mil, a imprensa fala em 25 mil e a polícia em 20 mil) protestam contra o capitalismo, contra a politica austeritária conservadora e neo-liberal, de natureza sectária e extremista. Fazem-no em pleno coração financeiro germânico. Já não são meia dúzia de anarquistas...não! Também não são umas centenas de arruaceiros anarquistas. São milhares...de homens, mulheres, jovens e velhos, todos unidos num grito uníssono..."o capitalismos já não nos serve"!

O que fará saltar para a rua milhares de alemães quando o seu país, afinal, até é o mais rico, o que mais cresce e o que mais exporta? O que fará esta gente normal, sem capuzes, gorros, tatuagens ou "very lights", sair à rua, manifestando pacificamente a sua convicção que, não obstante a opulência da nação que os acolhe, "as politicas financeiras capitalistas impostas, não ao seu país, mas aos outros países europeus, não prestam"?

A Alemanha de hoje, meus caros, é o retrato do futuro capitalista. Riqueza sem fim, crescimento estratosférico, gráficos a rebentarem as tabelas, acções a flutuarem ao sabor da roda dentada vampiresca dos "mercados", investidores  regozijantes de tão elevadas que são as suas mais-valias...O paraíso de qualquer Rabi financeiro devoto às forças transcendentes e insondáveis do omnipotente e omnipresente "mercado financeiro".

Neste país...podemos olhar à volta e ver o brilho opulente de tão imensa propriedade digital. São dígitos, números, caracteres, bináriamente multiplicados e consagrados. Até os computadores ganham alma, tal é o movimento nos seus discos e a energia que corre nos seus circuitos. Aliás, confundem-se as suas teclas e écrans com seres engravatados, de fato azul escuro a combinar com a cinza azulada de um portátil que processa dígitos sem parar.

Ahhh. Em meia hora...os dígitos financeiros que se processam! Estão sempre a crescer. Os seres computorizados fardados de azul e gravata de seda que se confundem com a sua máquina, quais autómatos cibernéticos de um qualquer futuro desumanizado, sentem no sangue, a energia electrostática que se apodera dos seus órgãos. Sentem vibrar o cartão de crédito que têm no bolso. Está mais cheio, sem, mas continua a medir o mesmo. Paradoxo infindável este, baseado na apropriação de quem ainda não é máquina, de quem ainda é de carne e osso.

E são estes, os seres humanos, aqueles que vestem qualquer coisa, da ganga à sarja, do nylon ao algodão, num festival de cores que resultam dos humores dos seus corações. São estes seres, que vivem como humanos, entre humanos e que sentem como humanos, renegando diariamente a uniformização maquinal de quem os oprime. São estes seres que sem farda mas com emoção, desce às ruas e gritam de dor, de alegria, de ódio, de saber, de ignorância, de sensação, com senso ou sem ele, mas são eles que dão a cara por nós.

São estes que lutam, que combatem contra a ditadura do número, da farda, do uniforme e da uniformidade, do cinzentismo da cor azul escura, do opaco de um ecrã de um qualquer PDA cheio de gráficos, dígitos e números. São os homens contra as máquinas. O que os leva à rua é o baixo salário quando a bolsa dispara. É a falta de emprego quando a acção bate o record, é a falta de tempo quando o tempo só serve para quem o quer como dinheiro, é a falta de esperança que nos torna a vida mais fácil de viver, é a falta de segurança que nos atira para o abismo.

À beira da catástrofe colectiva seres humanos manifestam-se contra os seres desumanos. Oprimidos contra os opressores. Vêem-se multiplicar-se as manifestações, vê-se crescer o corpo colectivo de seres humanos que não querem a barbárie da pobreza imposta. De que vale a riqueza se não for nossa?

Mas há quem não goste e eis que seres de inominada desumanidade, de receios inconfessáveis, disfarçados de insegurança pública, vêm proibir a manifestação. E para os tais 20 mil humanos (segundo a policia), enviaram 5 mil policias. 600 presos numa manifestação pacífica? Desumano. Mas nem todo o exercito era número. E, eis que no meio de tal azulismo cinzentista, surge a humanidade. Policias que antes eram um mero número, tiraram os capacetes e juntaram-se aos manifestantes. Não foram todos? Não, mas bastava um. Bastava um para o sol continuar a brilhar e a esperança por um futuro melhor continuar a ensombrar todos os que, abusivamente, nos extirpam do presente o sabor do sonho.

Não...o capitalismo já não nos serve! De que vale a riqueza, se não for nossa?


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