Historias...Parte 1


Nos passados tempos de El Rei D. Manuel I (como noutros), muito justamente apelidado de O Venturoso tal a sorte de se ter tornado rei (os que tiveram de morrer?!?!), haviam um ódio e um temor que congregavam grande parte da sociedade (ou pelo menos, a parte que mandava). Por um lado, o ódio aos Judeus e Cristãos Novos vistos como executores de JC. Por outro lado, o temor a Deus todo poderoso que na sua infinita misericórdia reinava a espécie humana por tão insondáveis desígnios que muito confusos traziam os comuns mortais.

Tal como noutros tempos, mais atrasados ou avançados na história humana, também nesses, os poderosos eram mestres no uso desses sentimentos para sua fruição pessoal e de classe.

E faziam-no de tal forma que, em década de seca e consecutivos maus anos agrícolas, ares putrefactos e empestados  por  incontáveis doenças do corpo e do espírito, de mortandade e miséria geral, tão rápidos foram os frades dominicanos a eleger a causa do problema climatérico evidenciado. O problema era dos Judeus! Perante tão grande número de pecadores nas nossas ruas (Portugal era, à data, um refúgio privilegiado para muitos deles, devido à intolerância e barbárie reinante na vizinha Castela e Leão), Deus todo poderoso, na sua infinita misericórdia, só podia estar chateado com os portugueses. Tal chateação, resultante de tão grande soma de pecados perpetrados por tão ímpia gente anticristã, só podia resultar numa não menor soma de castigos, reveladores do mais omnipotente poder divino, mas, ao mesmo tempo, inspiradores da maior das misericórdias, a da poupança das vidas. Eram castigos de sofrimento, que na sua moagem da vida quotidiana davam, ao mesmo tempo, a possibilidade de os pecadores se redimirem perante tão profundo e universal amor.

Eis que surge um frade dominicano (estes auto apelidavam-se de "cães de deus") que o diz a tão alto e bom som, que logo, muitos dos circundantes se acercaram e, atentando na mais religiosa e divina sabedoria, iniciaram uma desenfreada caça ao cristão-novo, mais concretamente ao apelidado de "marrano" (cristão-novo que continuava a professar a religião judaica às escondidas). Fora vários dias de caça ao homem, à mulher, à criança e ao velho. Milhares de Judeus foram queimados, mutilados e espoliados dos seus bens e da sua honra (não...não foi só o hitler). Já não lhes bastava viver em judiarias (autênticos ghetos), terem de se sinalizar com uma estrela de david (não...não foram os Nazis os primeiros...os, muitíssimo pios, católicos, já o haviam feito) e de pagarem impostos altamente inflacionados, mesmo assim, era preciso agradar a Deus todo poderoso e infinitamente misericordioso, de forma mais visível, radical e extrema (sempre o extremisto). As restrições reinantes e impostas não chegavam, para agradar a deus era preciso mais, muito mais. Eis que a turba, manipulada por aqueles que mandavam no espírito e no corpo (estes invejando o ouro, as jóias, os livros...) queimou esta gente, em tão grande quantidade, até em Setubal se tossir com as cinzas que a nortada para lá levava!

Como dizia...tudo para agradar a Deus todo poderoso e infinitamente misericordioso. pelo menos, era o que os poderosos diziam ao povo.


Histórias...Parte 2


Nos tempos de hoje, depois de anos a fio a privatizar o que pertencia ao estado e a todos, a baixar os impostos aos bancos e as empresas, a enfraquecer serviços públicos, a degradar a segurança social e a perseguir com todo o fundamentalismo resultante de uma atitude extremista, todos os direitos sociais que a classe dominante burguesa foi obrigada a reconhecer em resultado da luta dos povos (com medo da quebra da "paz social"), eis que, numa continuação lógica de tão grande degradação do publico em detrimento do privado, do proprietário em detrimento do assalariado, muitos sacerdotes ultra liberais vêem cantar, gritar, repetir e verberar sem fim, a ideia de que estamos em crise por causa do estado social (que muito já destruíram) e por causa dos direitos dos trabalhadores e principalmente, desses "malandros", que nada têm e não deixam ter, os sindicalistas.

Numa negada, escondida e obscura recuperação dos valores liberais burgueses pós revolução francesa,  segundo tão eminentes e numerados sacerdotes (só numerando é que os distinguimos, pois são todos iguais, como os dominicanos de preto) é preciso, baixar salários, direitos sociais, serviços públicos, aumentar impostos aos trabalhadores, diminui-los às empresas, vender o que resta do estado (menos o exercito para lhe venderem as suas armas), enfim, toda uma panóplia de medidas que sem critério distintivo relativamente a homem, mulher, criança e velho, lhe atribuem, estes hiper-ultra-mega liberais, uma capacidade de satisfação da sanha dos "mercados" e dos "investidores", que na sua incomensurável magnanimidade, nos pouparão se, muito "justamente", os deixarem penetrar em paz na nossa soberania, no nosso território, na nossa economia, na nossa sociedade e nas nossas vidas. Até lá, o castigo será inominável. A mais poderosa das privações monetárias poderá desabar sobre as nossas cabeças, não satisfaçamos nós a sua divina fome por mais e mais riqueza. Afinal, quem é rico é que produz riqueza, numa espécie de recuperação do trivial "dinheiro puxa dinheiro". Só o possuidor tem legitimidade para querer bem ao seu país! Esta expressão poderia ter sido retirada de um discurso do senhor Chapelle, que representava a classe burguesa no poder após a revolução francesa. Haviam-nas bem piores que esta! Claro que estes senhores burgueses revolucionários, que derrotaram o regime feudal, não queriam uma revolução operária e, tal como os senhores feudais lhes tinham feito, trataram logo de legislar, filosofar e argumentar a impossibilidade e a injustiça do facto de os trabalhadores, assalariados e não proprietários, se quererem organizar. Assim, os sindicatos e as greves e tudo o que era relação colectiva, foram eleitos obstáculos ao desenvolvimento e às leis da natureza, que dividiam a sociedade em duas classes, os que tinham e os que não tinham. Uns tinham direito, outros não! O mercado, a economia e a propriedade privada, resultavam de leis divinas, por serem naturais e como tal, o estado tinha de as proteger e facilitar a sua construção, não o contrário. As desigualdades sociais, para estes senhores, resultavam apenas do facto de os pobres (tendo os mesmos direitos em abstracto) terem uma tendência natural para a preguiça e para a inveja da riqueza dos ricos, o que os levava a quererem apropriar-se injustamente da riqueza, para a qual, os ricos tanto tinham trabalhado para acumular. Onde é que já ouviram isto?

A única diferença entre estes senhores do século XVIII e os de agora é que, os de então tinham a coragem de dizerem e fazerem o que pensava. Os cobardolas de agora, fazem o que pensam, mas escondem-nos tal pensamento. O que não, convenhamos, nada democrático. Ah, os cobardolas hiper liberais de agora, apresentam como moderno um discurso que era modero, de facto. Só que este discurso era moderno há 250 anos. Mas nada tem de incongruente. Afinal, quem recuperou de forma tão fiel, radical, sectária e fundamentalista a doutrina liberal anterior ao próprio liberalismo (num papismo maior que o papa Adam Smith pois este defendia que o trabalho e a sua regulação tinham de estar à parte destas regras por considerar que assalariado e patrão não estavam em igualdade de circunstâncias), também recuperou a modernidade que estas doutrinas tinham na altura! Recuperaram tudo, menos o que lhe interessa! Pois para os liberais, os especuladores eram parasitas que deveriam ser erradicados, perseguidos e presos, por distorcerem o mercado. Estes senhores cobardolas, vendidos hiper-ultra-liberais, faziam o mesmo que os seus companheiros de profissão, os sacerdotes dominicanos. Estes senhores lêem a bíblia deles, como os dominicanos liam a sua. Só na parte que lhes interessam. Como vemos, religião é tudo igual.

Cá, neste tempo, como no passado, quem manda tenta criar a ideia de que temos todos, como antes, de ter um temor em comum. E um ódio, também. Devemos então, ter o temor aos todo poderosos "mercados" e todo omnipotentes "investidores". Devemos também, ter ódio aos socialistas, comunistas e defensores do publico, do colectivo e da igualdade. Segundo tão eminentes sacerdotes, a sua inconfessada bíblia, vem dizer que os nossos estados estão minados de principios socialistas que promovem a distrorção do mercado, a desprotecção dos empresários e, consequentemente, a limtação da riqueza e da produtividade.

Então, vêem tão extremistas religiosos, propor que todas as conquistas civilizacionais, que nos distanciaram, todos estes anos, da lei da selva e da ditadura do mais forte (neste caso do mais rico), sejam, simplesmente, destruídas com tão grande prejuízo do novo e do velho, do preto e do branco, mas acima de tudo...do pobre e do trabalhador. e tudo...tudo, para agradar a um poder maior, do qual todos, sem excepção, devemos guardar um enorme temor: o poder dos "investidores" e dos "mercados", propagados pelas igrejas das agências de Rating, das Corporations, dos Bancos Centrais independentes dos estados e do povo, mas escravos dos capitalistas financeiros, dos paraísos fiscais e de todos os ministérios que muito ajoelhadamente, lambem o chão que tão intangíveis eminências pisam.

Tão magnânimo poder, já descrito na bíblia fisiocrática burguesa e smithiana liberal económica, é para estes senhores sacerdotes tão inquestionável como o era o do Deus todo poderoso para os cães de deus dominicanos. Apenas uma diferença: os cães de deus dominicanos tinham a coragem de dizer qual era a sua bíblia, os papagaios sacerdotes ultra liberais não!

Apresentando-nos um discurso podre de velho, saído do século XVIII, chamam-lhe de novo, apenas porque quem o apresenta aparece na "nova" televisão fardado de um fato azul "novo" e "moderno". Como os frades dominicanos de preto, também estes se vestem de igual. Como os frades dominicanos queriam agradar a Deus, estes querem agradar aos "investidores" e aos "mercados". A sanha de uns e outros não tem fim. Uns queimavam na fogueira, estes queimam-nos no sofrimento da perda, da indignidade e da ignorância.

Estou a ser radical? Estes senhores provocam a descida da esperança média de vida...o que é isso? Dar vida, ou tirá-la? Estes como os outros, sob a "justiça" de quererem agradar a um poder maior que o dos homens. Estes como os outros  extremistas, radicais e inumanos. estes como os outros, homens sem cara, sem coração, sem emoção e sem liberdade. Estes como os outros, números sem cérebro. 

Abaixo os poderes superiores, vivam os homens e as mulheres, viva o Humanismo! Viva o povo e o progresso civilizacional contra a lei da selva. Viva o Socialismo. Gente há que tem é de o tirar, não é da gaveta, é das profundezas do obscurantismo!

Hugo


P.s. já viram o incómodo destes ditadores subliminares, cerebrais e sofisticados, quando nós relembramos a história? Quem não conhece o seu passado, não pode avançar para o futuro! Porque será que as universidades cada vez mais têm cursos utilitaristas e cada vez menos cursos clássicos, dos que ensinavam a pensar? Porque querem um exército de seres desprovidos de história, de crítica e de capacidade de reflexão. Só reflecte que conhece e compara. Todos fardados de azul, cabelo lambido e mocassin com berloque, estes senhores são todos iguais, são todos seres telecomandados, sem cara, sem passado e sem história! Como qualquer máquina, também não têm futuro. Só o presente!
Reacções:

0 comentários: