vitor andrade...o insustentável "Homo contabilisticus"

Há uns dias, aquando das discussões sobre a idade da reforma e da segurança social, um esbirro ultra liberal do jornal expresso e revista exame, de seu nome vitor andrade, colocava em causa o problema da sustentabilidade do sistema de segurança social.

Então, este "guarda livros (sem ofensa para a digna classe)" normalizado, apelidado de "economista" - uma espécie de pequeno em bicos de pés - discutia com o apático jornalista se era possível, ou não, manter tal sistema a funcionar. Tanga para aqui, chavão ultra-liberal para ali, vitor andrade concluía a ideia dizendo, o que já ouvimos vezes sem conta: "a segurança social, tal como está, não é sustentável". 

O senhor pivot jornalista, num assomo de dignidade profissional - na medida exacta da permissão que lhe é conferida - questionou o "iluminado" comentador de economia, dizendo: "Mas a segurança social é uma coisa boa, não estaremos a colocá-la em causa"?

Eis que vitor andrade, após um primeiro impulso urticário, ao qual os seus arquétipos de programação informática ultra liberal não serão alheios, decide responder: "não sei se a segurança social é uma coisa boa"... "Pelo menos não é sustentável, e deveria de o ser".

Já nem questiono como é que se pode não classificar de"boa" uma coisa que tão bem tem feito ao povo. Claro, num mundo de números... Mas... Nunca uma simples expressão exprimiu tão bem a forma de pensar de toda uma classe. Nunca um simples resposta foi tão reveladora das crenças, inconfessadas, de toda uma estirpe de "financeiros" mascarados de economistas, academicamente programados para verem números onde deveriam ver pessoas.

A norma técnica ISO ULTRA LIBERAL S/ cérebro

Normalização fisionómica

Várias traços identitários se podem retirar da expressão de vitor andrade. Bem, não me refiro a traços fisionómicos absolutamente padronizados, qual ordem religiosa ultra radical. O fato azul da carris, fardamento que, provavelmente, é imposto por alguma ordem monetária secreta - uma espécie de maçonaria, não de pedreiros livres, mas de financeiros intelectualmente aprisionados.

A ausência de barba é outra das regras "normalizadas" deste tipo de agente financeiro. Afinal, a barba, poderia distingui-los dos demais. Uns teriam, outros não. Portanto, numa estirpe "normalizada", a opção barba crescida constitui, claramente, uma "não conformidade" ou uma "acção carecida de melhoria", para aplicar aqui o jargão técnico da "consultoria" de gestão.

O cabelinho aparadinho, nem muito curto, nem muito grande (não confundir com a norma técnica ISO Conservador - cabelo lambido, sapato "mocassim", etc.). O cabelo normalizado segundo a norma técnica ISO Ultra-liberal sem cérebro é outra das características, desta ordem secreta bem à vista de todos.

Normalização conceptual

Mas como dizia, não era da normalização fisionómica que queria tratar. O que me referia era, isso sim, às características intelectuais programadas nestes espécimes antropomórficos "light", desenhados para serem "sustentáveis" mas que nos saem bem caros,  como é o caso de vitor andrade.

Assim, de acordo com a normalização que nos vai sendo possível identificar, visto que devido, possivelmente, aos direitos de propriedade industrial, as especificações se mantêm secretas, há várias prescrições técnicas a que estes ultra-liberais correspondem:

  • A sustentabilidade financeira presente enquanto critério fundamental para determinação das opções sociais. Ou seja, só se pode fazer ou manter o que, numa análise friamente desumana, é sustentável no curto prazo, ou mesmo, no próprio presente.
Segundo esta série de seres antropomórficos, desenhados pelo grande capital para nos gerirem as contas e o dinheiro,  as escolhas que uma sociedade pode ou não fazer, não têm a ver com critério civilizacionais, humanos, democráticos, etc. Têm a ver com critérios de sustentabilidade financeira no presente.

É por isto que para vitor andrade a segurança social não é "boa" simplesmente porque, no seu ponto de vista, não é "sustentável". Bem, a sustentabilidade depende, como sabemos, das escolhas que uma sociedade democrática deve fazer para definir a forma como a riqueza é distribuída.

Vale a pena, ou não, sustentar a segurança social? Esta é que é a questão. Se vale a pena, pelo que a mesma significa, a questão seguinte que qualquer pensador racional colocaria seria: "como produzimos a riqueza para isso"? E daqui passaríamos às politicas de emprego, natalidade, distribuição da riqueza... Tudo no sentido de tornar a segurança social sustentável no presente e no futuro.

Contudo, esta linha de pensamento, segundo a qual a sustentabilidade é "o" critério, é uma linha absolutamente castradora. Quer dizer, se formos aplicar este critério a tudo, imaginem onde estava a história humana. Afinal, todo o investimento seria insustentável no presente. Investe-se, no sentido de se prever um sustentabilidade futura. Arrisca-se, aposta-se, avança-se porque se acredita que se podem criar as condições de sustentabilidade futuras. Ora, esta problemática leva-nos à especificação seguinte do pensamento ultra liberal:

  • A sustentabilidade não pode ser conseguida à custa do capital económico e financeiro privado. Não vale a pena dizermos que se pode conseguir dinheiro tributando a bolsa, as grandes fortunas, redistribuindo a riqueza...Para alguém em cujo padrão mental só entram as operações económicas tendentes à acumulação e concentração de riqueza numa elite, não vale a pena dizer que, é a justiça social que determina a necessidade de distribuição de riqueza. 
Estes animais antropomórficos não integram nenhuma componente social na gestão económica. Para eles a gestão económica é puramente matemática, distante das necessidades humanas. Para esta gente a economia não serve como ciência que se destina à gestão dos recursos escassos com vista à satisfação das necessidades materiais humanas. Para eles a economia não é mais do que a ciência que permite direccionar os recursos escassos para um único pólo de concentração, independentemente das necessidades materiais humanas.

Não vale a pena falar de humanização da economia, não vale a pena dizer que, primeiro a sociedade, democraticamente, escolhe como quer afectar a sua riqueza e depois a função da economia é garantir que os recursos existentes são geridos, produzidos, distribuídos, em função dessas escolhas. Para o "normalizado" ultra-liberal,  a escolha é sempre do capital, nunca do povo. Tal assunção leva-nos à norma seguinte do seu pensamento selvático:

  • A gestão financeira do capital privado não deve ser influenciada por critérios democráticos. Esta é a razão pela qual o sr. cavaco suspende a constituição. Esta é a razão pela qual o resgate do FMI não é mais do que um plano de extorsão. Esta é razão pela qual o governo quer um pacto governamental que limite a acção de governos futuros. Esta é a razão por que se mutila o povo do seu direito à verdade.
O objectivo é muito claro. Para esta gente, que se considera "pragmática" e "realista", o povo não sabe o que quer. Logo, não está apto a fazer as melhores escolhas. Nessa perspectiva, tudo vale para o enganar e manter na ignorância. Segundo eles, o povo que os legitima tem de ser protegido de si próprio.

A ideia de que em democracia é o povo quem escolhe o seu destino, não lhes cabe no padrão mental. A sua programação não lhes permite qualquer tipo de flexibilidade mental. A sociedade tem que funcionar numa lógica economicista, tendente à acumulação e apropriação de riqueza por uma elite. A isso chamam de "bom ambiente de negócios", mesmo que tal "ambiente" não mais consista do que num retrocesso civilizacional. Mas, para tal androide, não vale a pena falar de civilização, de progresso, de avanço. A resposta é sempre a mesma...Tem de ser sustentável, mas nunca à conta do capital, o que equivale a dizer: "não há possibilidade de escolha".

O novo paradigma

A esta pescadinha de rabo na boca, a esta lei da selva, a esta anarquia financeira, chamam esta gente de "nova ordem" ou "novo paradigma". A falta de sentido histórico, a falta de cultura filosófica, a falta de sentimento e inteligência, faz com que esta gente, colocada no poder, nos faça embarcar na destruição de todos os resquícios de solidariedade, fraternidade, humanismo,  justiça social, liberdade.

A proposta que nos fazem é a de que, o mundo tem de ser como é. Ou seja, apresentam-nos uma perspectiva absolutamente niilista, abandonando qualquer tendência construtivista que se pudesse querer implantar.

Daí que, para esta gente, regenaradora dos tempos de fausto e ostentação absurda de uns contra a pobreza mais miserável de outros, não haja outro caminho possível, uma vez que não se pode tocar no capital da elite financeira.

Estes senhores regeneram, igualmente, a antiga ideia de que era "deus" quem tinha feito a sociedade como era. Com uma diferença, para estes seres, foram os "mercados" que a fizeram asim. E tal como sucedia com deus, o que os "mercados" fazem, o homem não muda.

E a resposta é sempre a mesma..."O que querem fazer"? "São estas as regras impostas pelos mercados"! Nem vale a pena dizer que o feudalismo, a escravatura também era considerados sistemas imutáveis. Mas os homens, o povo, mudaram-nos. É isto que mais os aflige. É isto que mais os torna desumanos. Só uma máquina se peocuparia com a evolução humana. Só um robot se preocuparia com a mudança de paradigma. Só um ser programado é incapaz de aceitar uma saída para qualquer tipo de situação.

Tal como estes espécimes olham para a sociedade numa perspectiva puramente contabilística, vitor andrade não sabe que a economia surgiu para a judar as pessoas. Não o contrário.

Daí que a democracia lhe pareça insustentável. Daí que o humanismo deve de ser trocado pelo "financeirismo". Daí que em vez de "homo sapiens sapiens", vitor andrade seja apenas um "homo contabilisticus".

Por falar de sustentabilidade...Até quando vamos continuar a sustentar isto? Não somos nós que somos insustentáveis, são eles.


P.S. sr. vitor andrade, faça-nos um favor, deixe de nos tentar formatar o pensamento logo pela manhã. Acordar e vê-lo a falar, dá-me vontade de voltar para a cama. Para o bem do país...deixe-me ter vontade de ir trabalhar.


Afinal a ancestral guerra Homens/máquinas é verdadeira.

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