Da paz social do analfabetismo à contradição que faz progredir a educação




Estava eu na rua, à entrada de um centro comercial, quando desatei a ouvir um grupo de pessoas que falavam, em tom de desaprovação, dos professores e da greve. Armado em cusco, abri os tímpanos e tentei ouvir a conversa com o maior pormenor possível, como um programa de rádio. Conversa para aqui, conversa para acolá, uns contra, outros a favor e…eis que, depois de uma enormidade de costumeiras banalidades, saiu uma que, sendo rotineira, fez faísca. E que faísca.

Dizia a pessoa que, “os professores são sempre a mesma coisa”, e prosseguindo, “nunca ouve um governo em que os professores estivessem de acordo com ele”. Aplauso total da sua pequena plateia. Só que…pois é! Este aplauso reflectiu a total falta de consciência democrática da maioria das pessoas, havendo, de facto, muito a fazer nesta área. Porquê?

1.º O princípio de que são os professores a ter de se esforçar por estar de acordo.

“Mas são sempre os professores que discordam”, dirão alguns. Pois, e não serão sempre os Ministros que propõem reformas sem ouvir ninguém quando as concebem? Por acaso se alguém chegar ao vosso posto de trabalho e desatar a alterar tudo o que fazem, dizendo-vos que trabalham mal e que a partir dali é que vai ser, como ficam vocês? Orgulhosos? Contentes? Não! Ficam desgostosos. Se tiverem medo, calam-se. Se tiverem organização sindical, reivindicam. E qual é a melhor para o país. O calar com medo, ou o exercer a liberdade de intervir?  

Por outro lado, Bem, porque não deveriam de ser os Ministros a fazer o esforço de estarem de acordo com os professores? Porque é que o ónus é colocado nos professores? Então e a classe dos políticos governantes? Não terão de fazer um esforço? Ou, até, de fazer o maior esforço? Afinal, quem é o povo e quem é o governante? Em democracia, quem é que mais ordena?

A verdade é que os professores fazem parte do sistema de educação, tal como os alunos. Bem, se um politico chega com a missão de servir o interesse público, quem é que ele tem de ouvir? O ministro das finanças? Como fazem todos? Terá de ouvir o consultor, especialista e expert de fatinho azul que está na sala ao lado? Ou será que, um bom ministro da educação não deveria completar a sua missão, trabalhando, à partida com professores e alunos, os principais agentes do sistema educativo? Não é fazer e depois dizer – está aqui! Não, é fazer em conjunto! Com toda a participação, liderando, mas não impondo. Isto é para líderes. A maioria dos nossos ministros são líderes? Não. São seguidores e alunos bem comportadinhos.

E sabem porque é que os governantes não agem assim? Porque a sua missão não é o sistema educativo (ou outro qualquer), ou não é apenas essa. Há outras que, pela sua obscuridade não as podem assumir publicamente e, perante tal falta de legitimidade democrática, só lhes esta ir contra os professores e diabolizá-los, colocando em causa a imagem e estabilidade da escola pública. Mas esta atitude dos diversos governos, que nunca dizem ao povo, o que realmente pretendem e lhes passa pela cabeça ou que conversam nos corredores, é uma atitude de desrespeito para com a democracia. Típica da falta de cultura democrática portuguesa. Aliás, este governo foi eleito por 20% da população portuguesa, se tanto, sem explicar nada do seu programa politico. O Ministro das finanças gaba-se de não ter sido eleito. Daí que, como a maioria dos políticos não tem cultura democrática, optam por mentir, prometer o contrário do que fazem e depois, para o fazerem, dividem para reinar. E essa atitude, sim, essa atitude é totalmente anti democrática. E depois, os professores são os que têm a culpa?

Aliás, este Ministro da educação que a direita vem defender é, tão pouco ou muito oportunista que, hoje está num governo de direita, ultra liberal e com matiz autoritário, ontem, estes senhor, estava na UDP. Sim, na UDP. Estamos a ver, portanto, que belo político deve ser. Que grande coerência deve possuir. Para ir de um extremo ao outro em tão pouco tempo.

Depois, o facto de dever ser o Ministro a esforçar-se por se aproximar de professores e alunos, tem a ver com democracia. Ambos os grupos são eleitores e ambos os grupos são os principais interessados no trabalho do ministério. Logo, que raio de Ministérios é que temos tido que, todos eles têm querido fazer reformas contra e sem a participação de professores e alunos?

Só se disserem que são os professores que se devem rebaixar porque, enfim, o sr. Ministro é quem manda e quem manda tem de ser respeitado. Há sempre o recurso elitista e autoritário, próprio de um país que saiu da ditadura e ainda baseia a sua estrutura politica em gerações de gente sem qualquer cultura democrática.


2.º Os alunos também têm estado contra. Ou já se esqueceram dos ministros que caíram pelas lutas das associações e movimentos de estudantes?

Vem-me à memória o caso da PGA. Prova Geral de Acesso. O Ministro da Educação de Cavaco, depois de uma torrente de manifestações de estudantes em todo o país, mais não teve que o prémio da demissão. Depois, vieram as propinas, os exames e outras “reformas” que sempre encontraram nos estudantes a oposição firme de que tem uma voz e quer utilizá-la. Quem ganhou com isso? Ganhou o ensino público, ganhou a democracia, ganhou o país.

Portanto, se olharmos para a relação entre as associações de estudantes e os vários Ministérios, ela nunca foi pacífica e ainda bem que não o foi. Porque, quem não entende a importância da contradição para a democracia e para o progresso, meus caros…não entende nada disto!



3.º Os professores também são pais e mães. E eleitores.

Por outro lado, os professores, na maioria das vezes são tratados como uma espécie de extra-terrestres que descem todos os dias à terra para dar aulas. Eu volto a bater nesta tecla. Os “diabolizados” professores são seres humanos, trabalhadores e trabalhadoras, pais e mães, eleitores e eleitoras. São pessoas como as outras. Portanto, estão integrados no sistema de ensino numa dupla vertente. A vertente profissional e a vertente pessoal e social. Melhor do que ninguém podem perceber os ataques que são feitos por governos economicistas e por ministros anti democratas, à escola pública e ao sistema de ensino, em particular.

Aliás, volto a busca uma expressão do enorme Marques Mendes sobre estas greves. “Infelizmente, quem vai perder com isto é as escola pública”. Dizia eles. “nas escolas privadas, isto não aconteceria”.

Pois é, é esta perspectiva conservadora, autoritária e ditatorial que me assusta. É que depois de mais de 40 anos de escolas privadas e ausência de greves e lutas de professores, o país tinha 80% de analfabetos e a educação era coisa de elite. Alguém tem dúvidas de que se os professores, alunos e povo, em geral, tivessem voz activa durante o período da ditadura (o que seria, obviamente, um paradoxo) que a educação não estaria melhor do que estava? Ora, a verdade é que na ditadura (como muitos ainda gostariam de estar) todos estavam caladinhos e os senhores ministros faziam tudo à sua maneira. Resultado? 80% de analfabetos.

É porque, das duas uma. Se não acreditarmos nisto, ou não somos democratas, porque achamos que a sociedade não deve de ser plural e diversa, ou então, não sabemos o que é a democracia. É que em democracia o respeito não se impõe pela autoridade, impõe-se pela responsabilidade que a liberdade de intervir acarreta. E essa intervenção deve ser limitada pela tolerância que temos de ter para com as ideias diversas.

Desta contradição constante, nasce o progresso. Nasce a democracia. E é por isto que a educação em Portugal, nos últimos 40 anos deu um salto fantástico. Precisamente porque todos os agentes se empenharam em contribuir com as suas causas, comas suas opiniões, com as suas qualidades e, obviamente, com os seus defeitos e limitações. Isto é tudo muito humano, é tudo muito democrático. Quem não entende isto…


4.º A direita e os conservadores têm ideia de uma sociedade harmónica, uniforme e cinzenta. Tudo igual, tudo calado e tudo sossegado. Tudo em falso acordo. Tudo politicamente correcto, tudo certinho e direitinho. Têm ódio à diferença, à opinião e ao confronto de ideias.

O que é que os países assim, ganham com isso? Ganham terceiro mundismo, ganham fome e miséria, ganham atraso. É a contradição que faz a evolução.

O filósofo Hegel descobriu que a realidade evoluía de acordo com um principio dialético baseado em opostos. Segundo Hegel, toda a dinâmica do real e composta de “tese”, “antítese” e “síntese”. A “síntese” mais não é que o resultado do confronto entre a “tese” e a “antítese”. Caso não existisse esse confronto de opostos a realidade era estanque e não evoluiria. De referir que esta teoria não é “materialista”, trata-se de uma teoria “idealista”. O próprio Hegel era religioso.

Mais tarde, Karl Marx, partindo deste principio e aplicando-o à história, identificou a luta de classes como o motor da mesma. São as contradições entre classes que fazem andar a história humana.

De referir que, hoje em dia, como se sabe, estas teorias estão mais do que comprovadas cientificamente. De facto as coisas funcionam assim e as doutrinas democráticas, sejam de que correntes forem, partem sempre da aplicação deste princípio. O governo do povo mais não é do que o confronto entre as pretensões dos seus representantes, honestas ou não (tese) e as opiniões democráticas veiculadas através da participação do povo (antítese). O confronto das duas descamba na “síntese” que representará sempre uma evolução em relação ao estádio de desenvolvimento anterior.

No caso patente dos professores, os programas dos governos representam as “teses” e as posturas dos alunos e professores representam as “antíteses”. A “síntese” é a educação que temos, para o bem e para o mal.

A importância da contradição para o sistema de educação

Com todas as suas limitações e falhas, julgo que é evidente (pior que o cego é o que não quer ver) a melhoria do sistema de educação desde o 25 de Abril. Só a erradicação, quase total, do cancro do analfabetismo, constitui uma façanha historicamente importantíssima para o futuro do país. Sem a democracia, sem a contradição, tal não seria possível.

Assim, a sociedade cinzenta que a fossilizada direita, com as suas datadas correntes elitistas e autoritárias, em que a paz social era um fim em si mesmo, sobreposto a todo o interesse de classe, seria, como se vê, uma forma de perpetuar o atraso que possamos ainda ter.

Daí que, não percebo porque é que esta questão da luta dos professores levanta tanta indignação nalgumas pessoas que, algumas delas, até se assumem de esquerda. Daí que, só seja compreensível essa indignação à luz de princípios e preconceitos conservadores intrincados e situados na parte da inconsciência mental.

Depois do que disse, não tenho dúvidas nenhumas de que, o acordo constante dos professores com quaisquer que fossem as propostas dos ministérios (só porque são ministérios), só prejudicaria a escola pública. Dizeres como o do Marques Mendes, são típicos de conservadores, anti democratas que, ainda por cima, têm agendas sobrepostas de destruição da escola pública. Aliás, muita desta gente, estaria muito bem situada politicamente, no tempo da ditadura. Daí se vê a forma como se relacionam com a diversidade, o pluralismo, a liberdade e o direito.

Podíamos estar melhor? Pois podíamos, mas também podíamos, e já estivemos, bem pior e é por termos estado bem pior que temos de valorizar o empenhamento dos agentes educativos que temos. Professores e alunos. Os políticos….não contam, são apenas personagens com a missão de facilitarem e promoverem o progresso da educação e outras coisas. A sua contribuição tem sido diminuta. Agradeçam, isso sim, a quem está lá. São aqueles que estão com os vossos filhos, os melhores filhos do mundo, que têm de valorizar. Não ao senhor de fato azul que aparece na televisão. Isso é anti democrático, ilegítimo e indigno para quem trabalha. Em Portugal temos começar a valorizar mais quem trabalha. Aliás, onde nos leva o que chamo de autocracia do culto da personalidade. Uma empresa dá lucro e quem recebe o prémio é o director. Um ministério faz um bom trabalho e quem recebe as loas é o Ministro. Não, sozinhos não fariam nada. Os verdadeiros líderes sabem-no. Ora se sabem.

O que é a sociedade democrática, então?

A sociedade democrática é a sociedade da diferença, da pluralidade, da liberdade, da responsabilidade e da tolerância. O respeito é imposto através da tolerância, da dignidade e do direito, não pela autoridade.

Agora, isto dá muita urticária a todos os que se dão mal com a democracia. Um Ministro que chega ao poder, depois de anos de carreirismo politico, sem nunca ter sido professor (nalguns casos) e que acha ter a solução do problema, querendo aplicá-la sem envolver os implicados, aqueles que aplicam e desenvolvem o sistema, aqueles que estão no terreno e, para o bem e mal, são as referências dos nossos filhos, este Ministro está a breve caminho de se tornar, ele próprio, o problema.

Radicalismos, defeitos, limitações, egoísmos, hipocrisias, cinismos, entre outros, todos os seres humanos têm. Quem controla isto? O Ministro? Não! Isso não seria democrático, porque ele também é humano, ou não. Quem controla isto é o processo democrático.

E é por ser este processo que, os países mais democráticos, com taxas de participação social maiores são, inegavelmente, os mais desenvolvidos a todos os níveis. E é por isto que a cultura é tão importante, tal como a educação. Daí que, um governo que quer reformar a educação apenas para cortar dinheiro e um governo que quase desculturalizou a sua acção politica, é um governo que está a atentar, indubitavelmente, contra a democracia.

Portugal pagará um preço caríssimo se, democraticamente, não os conseguirmos travar a tempo do retrocesso.

Viva a democracia. Da contradição, da discussão, nasce a luz. A dúvida é o principio do conhecimento, permitam-nos duvidar. Abaixo o conservadorismo que manteve a humanidade milénios na escuridão. Viva o progresso.




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