Linhas Tortas

Grande azáfama ia no forte militar do contingente norte americano Iraque, mais concretamente em Sadr city, cidade de Bagdad. Eram filas e filas, cada vez maiores, de Iraquianos de todos os credos, sexos, idades e estatutos que se juntavam nas proximidades da entrada do forte. Uma coisa pelos menos conseguiram estes americanos, criar uma unanimidade junto de gentes de diferentes proveniências, xiitas e sunitas, unanimidade esta que nem maomé ou mesmo Alá conseguiram.

As filas sucediam-se ao ritmo dos disparos. Os Iraquianos em filas mais ou menos ordenadas forçavam a entrada no forte, a pé. Os americanos, sempre tão solícitos como incultos e arrogantes lá iam dizendo: - Stop right there! Os Iraquianos prosseguiam a caminhada, ao que os americanos, nervosos, replicavam perante tão absurda determinação: - If you don't stop I'll shoot you! E os Iraquianos, nada! Prosseguiam, até que o soldado, finalmente, fazendo uso da sua desgastada AK (compradas ao ex-inimigo pela sua durabilidade), lá descarregava mais um cartucho na pele dasqueles desgraçados que, paradoxalmente, enfrentavam as balas com tanta determinação que até metia inveja a qualquer americano que combate pela democracia.

Os americanos, sem saberem o que fazer, tentavam, nas imediações do forte, interrogar os Iraquianos que por aí circulavam e se acumulavam. Não obtinham qualquer resposta. Era ouvi-los perguntar: - Ei man, why are you doing this? Os Iraquianos respondiam com um simples encolher de ombros. Este gesto era interpretado pelos americanos como um acto obstinado de desafio da sua autoridade, ou então, o medo que tinham das bombas levava-os a matar mais um e mais outro, por pensarem que se calhar o gesto servia para accionar algum dispositivo explosivo.


E isto ia sucedendo de dia para dia, até que, num novo contingente, acabadinho de chegar chegou um soldado americano de origem Portuguesa, que, ao contrário dos americanos, já estando há alguns meses no Iraque, já ia conseguindo dizer algumas alarvidades em árabe. Assim, no dia seguinte, dia em que, para variar, mais Iraquianos se juntavam no mesmo local, familias inteiras caminhando para a morte, o portuga lá foi para o meio da fila e perguntou o que se passava, pois o que lhe tinham dito era que ia para ali para libertar os iraquianos e não para os matar. O iraquiano interragado respondeu: - Sabe, desde que vocês aqui chegaram as condições de vida têem-se degradado de dia para dia e cada vez estamos mais desesperados! O soldado portuga, confuso, tentou explicar que o que estava ali a fazer era a libertá-los. O Iraquiano respondeu: - Nem eu digo o contrário! Por isso é que aqui estamos! Afinal somos todos suicidas e o que queremos é matar-nos para nos libertarmos da tirania e anarquia que vocês aqui trouxeram, por isso aqui estamos! Sabendo que os americanos têem o cérebro ligado ao dedo indicador e pensam mais com o cano da metralhadora do que com a cabeça, os iraquianos sabiam que bastaria a aproximação do forte para que fossem mortos (não, abatidos, quando são Iraquianos, diz-se, abatidos). Não se enganaram e agora já sabemos duas coisas. Uma é a razão pela qual os americanos têm assassinado tanta gente, outra é que o conceito de libertação pode ter vários sentidos e assim já percebemos o que queria Bush quando falou em libertar o Iraque.

O soldado Português atónito e perplexo com a explicação, ficou, contudo, contente com a sua missão, afinal estão mesmo a libertá-los, só que do inferno que eles próprios causaram. Mas não faz mal, pensou. Deus, Alá ou quem quer que seja, escreve direito por linhas tortas não é? Então, continuemos com a matança.


Hugo Dionisio
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